A transportadora CMA CGM formalizou um aumento significativo nas taxas Freight All Kinds (FAK) para embarques originados nos principais portos da Ásia com destino ao Mar Mediterrâneo e Norte da África. Com vigência estabelecida entre 22 e 29 de março de 2026, a medida incide sobre o Conhecimento de Embarque e reflete a necessidade de recomposição de margens diante de um cenário de instabilidade operacional severa. O ajuste tarifário ocorre simultaneamente ao agravamento das tensões no Estreito de Ormuz, que tem forçado o setor logístico a recalcular custos de rota e prazos de entrega em um dos corredores comerciais mais densos do globo.

Reestruturação tarifária e custos operacionais

De acordo com os novos valores divulgados por Antonia Saratsopoulou, da CMA CGM, o transporte de contêineres de 20 pés para o Mediterrâneo Ocidental e Oriental agora atinge USD 4.700, enquanto as unidades de 40 pés e High Cube chegam a USD 6.300. Para destinos como a Argélia, os custos são ainda mais elevados, alcançando USD 8.800 por contêiner de 40 pés. Esta elevação não é um movimento isolado, mas uma resposta técnica à pressão nos custos de insumos básicos e riscos de navegação que afetam tanto cargas secas quanto refrigeradas.

Complementando o aumento das taxas FAK, a CMA CGM e a Hapag-Lloyd anunciaram a implementação de sobretaxas emergenciais de combustível (EBS). Estes valores adicionais variam entre US$ 70 e US$ 75 por TEU para trânsitos regionais e chegam a US$ 150 por TEU em viagens de longo curso a partir de 23 de março. A elevação dos preços do petróleo, impulsionada pela redução do fluxo de petroleiros em pontos estratégicos, obriga os transportadores a repassar custos variáveis de forma imediata para manter a viabilidade das operações marítimas.

Geopolítica e o gargalo de Ormuz

A análise técnica de Judah Levine, chefe de pesquisa do Freightos Group, destaca que o fechamento parcial do Estreito de Ormuz gerou uma preocupação sistêmica na movimentação de combustíveis e contêineres. Embora o volume de embarcações de carga conteinerizada que utiliza o estreito seja inferior ao de petroleiros, o congestionamento resultante em centros de transbordo no Extremo Oriente já é visível. Portos na Índia e em Bangladesh, exportadores de peso para o Golfo, relatam atrasos significativos na liberação de mercadorias e no fluxo de navios.

Os níveis de utilização dos pátios nos portos asiáticos aumentaram à medida que os armadores desviam cargas originalmente destinadas ao Golfo. Planos de contingência estão sendo acionados, envolvendo o desembarque em portos alternativos e a finalização do transporte por via rodoviária, o que adiciona camadas de complexidade e custo à cadeia de suprimentos. Essa densidade excessiva nos terminais de transbordo compromete a eficiência da rede logística global, retardando a reposição de estoques em mercados dependentes do fornecimento asiático.

Transbordamento para o modal aéreo

As interrupções marítimas provocaram uma migração de volumes para o transporte aéreo, gerando um efeito dominó nos preços deste modal. Dados do Freightos Air Index apontam que as taxas de frete aéreo do Sul da Ásia para a América do Norte e Europa saltaram cerca de 50% desde o início das hostilidades no Irã. Gigantes do setor como Emirates Skycargo, Qatar Airways e Etihad, que juntas detêm 13% da capacidade global, enfrentam restrições severas em seus hubs de conexão leste-oeste devido ao fechamento de espaços aéreos.

O cenário é agravado pela coincidência com o período pós-Ano Novo Lunar, quando a demanda naturalmente apresenta picos de volume. Com a suspensão temporária de operações de carga em aeroportos como o de Doha, a capacidade disponível no mercado encolheu, forçando exportadores chineses a competirem por espaço em aeronaves com tarifas que superam os US$ 7,00 por quilo. A integração logística entre os modais marítimo e aéreo demonstra sua fragilidade quando os principais pontos de passagem globais sofrem bloqueios simultâneos.

Conclusão e perspectiva de mercado

A conjuntura atual exige que gestores de logística e profissionais de comércio exterior adotem uma postura de vigilância constante sobre as variações tarifárias e a disponibilidade de equipamentos. A volatilidade dos fretes entre a Ásia e o Mediterrâneo serve como um termômetro para a resiliência das cadeias globais, indicando que a estabilidade de custos é, no momento, uma meta secundária diante da necessidade de garantir o fluxo físico das mercadorias. O monitoramento das sobretaxas de combustível e das condições nos terminais de transbordo será determinante para o planejamento orçamentário do próximo trimestre.

No Brasil, observamos esses movimentos internacionais com a cautela de quem compreende a interdependência dos mercados. Embora as rotas diretas para o país não sofram o mesmo impacto imediato das linhas do Mediterrâneo, a pressão global sobre o preço do petróleo e a escassez de espaço em navios de longo curso inevitavelmente alcançam nossa costa. É perceptível que o setor portuário nacional busca evoluir em eficiência para mitigar esses choques externos, provando que, apesar das deficiências infraestruturais históricas, o país avança na profissionalização de sua logística internacional.