A Autoridade Portuária de Santos (APS) firmou no início de março de 2026 acordos estratégicos com o Instituto de Engenharia (IE) e a plataforma digital Blue Santos para enfrentar a iminente saturação operacional do maior complexo portuário da América Latina. A iniciativa busca embasamento técnico especializado para projetos de infraestrutura e sustentabilidade, respondendo ao crescimento acelerado da movimentação de contêineres no Brasil, que atingiu a marca de 15,3 milhões de TEUs em 2025. O movimento evidencia a necessidade crítica de novos ativos estruturantes, como o Tecon Santos 10, para garantir a fluidez do comércio exterior e a competitividade logística nacional.
Gargalos técnicos e cooperação estratégica
O Acordo de Cooperação Técnica, assinado pelos presidentes Anderson Pomini (APS) e José Eduardo Frascá Jardim (IE), estabelece a criação de um comitê especializado com vigência de 24 meses. Este grupo terá a missão de avaliar e propor soluções para temas críticos da Baixada Santista, incluindo acessos terrestres, pavimentação, drenagem e logística urbana. A integração visa unir a excelência da engenharia consultiva às demandas operacionais urgentes, garantindo que as expansões físicas sejam acompanhadas por melhorias sistêmicas no fluxo de cargas.
Complementando a visão de modernização, a APS formalizou sua adesão à plataforma Blue Santos, coordenada pela Rethinking Works (RTW) e pela Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Santos (AEAS). Com a participação de Mathias Mangels e Andre de Fazio, o projeto foca na economia azul e em práticas de gestão de impacto ambiental alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Essa abordagem multidisciplinar é essencial para que o crescimento do porto ocorra de forma ordenada e sustentável, mitigando conflitos com a malha urbana local.
Demanda crescente e risco de saturação
A urgência dessas medidas é ratificada pelos dados de movimentação portuária. Entre 2024 e 2025, o volume total movimentado nos portos brasileiros cresceu 10%, com o Porto de Santos alcançando 5,2 milhões de TEUs. No entanto, o crescimento de Santos tem sido inferior à média nacional devido à sua crescente saturação operacional. De acordo com as diretrizes da OCDE, a capacidade operacional ótima de um terminal deve ser de aproximadamente 70% da capacidade instalada para absorver intercorrências, uma margem de segurança que o complexo santista está prestes a esgotar.
Analistas do setor, como Leandro Barreto, apontam que, mesmo com os investimentos previstos pela Santos Brasil (elevando o Tecon Santos para 3 milhões de TEUs até 2026) e pela DP World (alcançando 2,1 milhões de TEUs até 2028), a conta da capacidade total brasileira não fechará em 2030 sem novos projetos. A projeção indica que a demanda continuará superando a linha de eficiência operacional, o que expõe a logística nacional a riscos severos de atrasos e custos elevados em caso de crises geopolíticas ou climáticas.
Necessidade de ativos estruturantes
Neste cenário, a concessão do Tecon Santos 10 e os avanços no Porto de São Sebastião deixam de ser opções e tornam-se imperativos para a resiliência da cadeia de suprimentos. O projeto do Tecon Santos 10 é fundamental para recompor a margem de segurança operacional do país, permitindo que o sistema absorva picos de demanda sem gerar filas de navios ou congestionamentos nos pátios. A superação dos entraves burocráticos que retardam esses ativos é o principal desafio para os gestores públicos e privados nos próximos anos.
A integração de novas tecnologias de gestão, como softwares avançados de controle de pátios e automação de gates, será o diferencial competitivo para maximizar a eficiência dos terminais existentes enquanto as obras civis não são concluídas. Soluções que permitam a visibilidade em tempo real e a otimização de recursos são indispensáveis para enfrentar o descompasso entre a oferta de cais e o volume de carga que o Brasil projeta para a próxima década.
Apesar dos desafios históricos de infraestrutura e da lentidão em processos decisórios, o setor portuário brasileiro demonstra uma resiliência notável ao manter um crescimento médio de 5% ao ano nas últimas duas décadas, mesmo diante de crises globais. O atual movimento de cooperação técnica entre a APS e o Instituto de Engenharia sinaliza que, embora o caminho seja complexo, o Brasil segue evoluindo e buscando maturidade institucional para sustentar sua posição como protagonista no comércio marítimo internacional.