O setor logístico global enfrenta uma nova onda de instabilidade com a retirada de coberturas de seguro e a imposição de sobretaxas de emergência pela CMA CGM no Oriente Médio, justamente quando os portos do Sudeste brasileiro celebram a marca histórica de 699,8 milhões de toneladas movimentadas em 2025. O cenário exige cautela de exportadores e importadores, pois o aumento nos custos operacionais no Golfo Pérsico ameaça a competitividade das rotas de longo curso, responsáveis por grande parte do escoamento mineral e agroindustrial do Brasil. O crescimento de 7,52% registrado pela Antaq reflete a robustez interna, mas a dependência de corredores internacionais instáveis coloca à prova a resiliência das cadeias de suprimentos nacionais.

Insegurança no Golfo e o custo do risco

A partir de 5 de março de 2026, seguradoras globais como Gard, Skuld e NorthStandard iniciam a retirada de coberturas de risco de guerra em zonas críticas, incluindo águas territoriais iranianas e o Golfo de Omã. Esta decisão, coordenada pelos principais Clubes P&I, responde à escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã, elevando o nível de risco marítimo para crítico segundo o Centro Conjunto de Informações Marítimas (JMIC). A escassez de resseguro transforma a proteção financeira em um gargalo operacional, com estimativas de que os prêmios de casco marítimo para trânsitos na região sofram reajustes que podem chegar a 50% em casos de recombra de viagem.

Além da barreira financeira, a integridade técnica das navegações está comprometida por interferências severas em sinais de GNSS/GPS e interrupções no sistema AIS, particularmente próximo à costa iraniana. Tais anomalias aumentam consideravelmente a probabilidade de erros de cálculo e colisões em áreas de grande densidade de tráfego, como os portos dos Emirados Árabes Unidos e de Omã. Para os operadores, a indisponibilidade de seguro acessível torna-se um fundamento jurídico para a revisão de cláusulas de porto seguro e força maior, paralisando trânsitos comerciais estratégicos mesmo sem um fechamento formal do Estreito de Ormuz.

Sobretaxas e o impacto no comércio exterior

Acompanhando a retração do mercado de seguros, a armadora CMA CGM implementou, em 2 de março de 2026, sobretaxas de emergência por conflito que variam de US$ 2 mil a US$ 4 mil por contêiner para diversos destinos no Oriente Médio. A medida afeta terminais em países como Arábia Saudita, Kuwait, Catar e o porto egípcio de Ain Sokhna. Essa pressão nos fretes atinge diretamente o planejamento logístico das empresas brasileiras que utilizam essas rotas para o escoamento de mercadorias. A companhia francesa justificou a cobrança como uma medida necessária para cobrir custos operacionais adicionais decorrentes das manobras militares na região.

A cobrança incide tanto em novas reservas quanto em cargas já em trânsito, o que gera uma instabilidade imediata no fluxo de caixa dos exportadores. Como o Sudeste brasileiro concentra cadeias estratégicas de mineração, energia e agronegócio, qualquer variação nos custos de longo curso reverbera na competitividade final do produto nacional. A eficiência portuária, defendida pelo ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, passa a ser testada pela capacidade de absorção desses choques externos que fogem ao controle da infraestrutura nacional.

Resiliência portuária e crescimento do Sudeste

Enquanto o cenário internacional se deteriora, o Sudeste brasileiro demonstra vigor com um crescimento expressivo na movimentação de cargas. O Porto de Santos liderou o volume com 142,8 milhões de toneladas, enquanto o Porto do Açu registrou a maior expansão percentual da região, atingindo 20,31% de alta focada em petróleo e derivados. Esses números consolidam a região como o principal eixo de escoamento brasileiro, amparado por uma infraestrutura que movimentou 531,2 milhões de toneladas apenas no transporte de longo curso, evidenciando a profunda integração com o mercado global.

O secretário nacional de Portos, Alex Ávila, atribui esse desempenho à previsibilidade regulatória e à forte participação da iniciativa privada em terminais como o de Tubarão, que movimentou 87,4 milhões de toneladas. A movimentação maciça de minério de ferro e petróleo reforça o papel do Brasil como fornecedor estratégico de insumos básicos. Contudo, o sucesso operacional desses complexos agora depende da agilidade em mitigar os reflexos da crise logística no Oriente Médio, garantindo que o recorde de quase 700 milhões de toneladas não seja comprometido pela inflação dos custos de transporte marítimo.

A análise conjunta dos fatos mostra que o Brasil possui ativos logísticos resilientes, mas permanece vulnerável às oscilações geopolíticas que encarecem o transporte. O desafio para o restante de 2026 será manter o ritmo de crescimento nas exportações diante de um mercado de seguros restritivo e fretes pressionados por conflitos armados. Mesmo com as turbulências globais e as carências históricas de nossa malha logística, o desempenho dos portos do Sudeste revela uma capacidade singular de evolução. O país segue avançando e profissionalizando suas operações, provando que, apesar dos entraves externos, a consolidação do Brasil como player global de commodities é um caminho sólido e em constante expansão.