A partir de 2 de março de 2026, a transportadora CMA CGM implementará a Taxa de Emergência por Conflito em resposta direta ao agravamento da segurança marítima no Oriente Médio. A decisão ocorre simultaneamente à suspensão total das travessias pelos estreitos de Ormuz e Suez anunciada pela Maersk, que redirecionou seus serviços ME11 e MECL para a rota do Cabo da Boa Esperança após ataques militares envolvendo Estados Unidos, Israel e o Irã, visando proteger tripulações, navios e mercadorias.

Custos logísticos e novas tarifas

A nova estrutura tarifária da CMA CGM estabelece sobretaxas de US$ 2.000 para contêineres de 20 pés e US$ 3.000 para unidades de 40 pés, alcançando US$ 4.000 em equipamentos especiais ou refrigerados. Estas taxas incidem sobre cargas com origem ou destino em mercados estratégicos, incluindo Iraque, Arábia Saudita, Egito e Emirados Árabes Unidos, abrangendo tanto novas reservas quanto mercadorias já em trânsito ou a bordo das embarcações.

A imposição dessas cifras reflete a necessidade das armadoras de absorver os custos operacionais excedentes gerados por seguros mais caros e o consumo adicional de combustível nas rotas alternativas. Para os profissionais de comércio exterior, a medida representa um aumento imediato no custo do frete, exigindo uma readequação orçamentária para operações que cruzam a Península Árabe ou o Chifre da África em um momento de extrema volatilidade geopolítica.

Bloqueios e desvios de rota

A Maersk optou pelo redirecionamento geográfico para evitar as zonas de conflito após episódios de violência que culminaram na morte do aiatolá Ali Khamenei em operações militares. Embora o trânsito pelo Cabo da Boa Esperança adicione dias significativos ao tempo de viagem, a empresa dinamarquesa prioriza a integridade das operações diante da incapacidade de garantir a passagem segura pelo Canal de Suez, via anteriormente considerada a mais eficiente e sustentável do portfólio.

Monitoramentos realizados pela Skytek indicam que centenas de navios porta-contêineres e graneleiros operavam no entorno do Estreito de Ormuz no ápice das tensões, enquanto dados da Kpler confirmaram que quatro navios-tanque do tipo VLCC alteraram seu curso subitamente. Essas embarcações transportavam juntas cerca de 1,1 milhão de toneladas de petróleo bruto, evidenciando que o receio de apreensões e ataques cinéticos paralisou fluxos vitais para o abastecimento energético mundial.

Impacto no fornecimento de energia

O Estreito de Ormuz concentra cerca de 31% do fluxo global de petróleo bruto transportado por via marítima, com uma movimentação média de 13 milhões de barris diários registrada em 2025. A instabilidade nessa artéria logística pressiona as cotações internacionais da commodity e gera um efeito cascata em todos os modais de transporte que dependem de combustíveis fósseis, ampliando a inflação logística em escalas continentais.

A consultoria Vizion estima que o valor da carga exposta a riscos no início de março superava a marca de US$ 4 bilhões, distribuídos em 135 mil TEUs em trânsito. O abandono temporário das rotas pelo Mar Vermelho por gigantes do setor altera o equilíbrio da oferta de espaço nos navios e deve gerar gargalos em portos secundários que não estavam preparados para receber o volume desviado de rotas principais.

Perspectivas para o mercado

A crise atual demonstra a fragilidade das cadeias de suprimentos globais perante conflitos armados e a dependência de passagens marítimas estreitas. O cenário exige que embarcadores e gestores de logística busquem maior diversificação de fornecedores e rotas, além de manterem planos de contingência financeira para suportar variações abruptas nos custos de frete internacional que fogem ao controle comercial tradicional.

Apesar dos desafios impostos pela conjuntura externa e das oscilações nos custos operacionais, o setor portuário e de comércio exterior brasileiro mantém sua trajetória de aprimoramento técnico e resiliência produtiva. Mesmo com as barreiras logísticas impostas por crises internacionais, o país demonstra capacidade de adaptação e continua a fortalecer sua posição no mercado global através da inovação e da busca constante por eficiência operacional.