Mudança de Comando e Tensão Jurídica na América Central
Em 24 de fevereiro de 2026, a Autoridade Marítima do Panamá (AMP) formalizou a transferência temporária das operações nos terminais de Balboa e Cristóbal para a APM Terminals, subsidiária da dinamarquesa Maersk, e para a Terminal Investment Limited (TiL), braço portuário da MSC. A decisão sucede a anulação da concessão da Panama Ports Company (PPC), controlada pela holding chinesa CK Hutchison, após o Supremo Tribunal panamenho declarar a inconstitucionalidade do contrato vigente desde 1997. Esta movimentação altera drasticamente a dinâmica em um dos pontos mais sensíveis do comércio global, visto que os terminais em questão movimentaram 3,77 milhões de contêineres em 2025.
Geopolítica e Incerteza no Panamá
A transição de operadores ocorre sob forte tensão jurídica. A CK Hutchison, cujas ações recuaram 1,8% após a perda da concessão, já acionou a arbitragem da Câmara de Comércio Internacional, pleiteando uma indenização que pode alcançar a marca de dois bilhões de dólares. Além do embate financeiro, a holding chinesa advertiu diretamente a Maersk sobre possíveis responsabilidades legais ao assumir os terminais. Atualmente, a APM Terminals conduz uma fase de estabilização em Balboa, implementando novos sistemas operacionais e avaliando a infraestrutura deixada pela concessionária anterior.
Para o mercado de logística internacional, essa instabilidade no Panamá gera um alerta sobre a segurança jurídica em hubs tradicionais. A necessidade de diversificação de rotas e a busca por portos que ofereçam previsibilidade operacional tornam-se prioridades para os grandes armadores. Nesse cenário, o Brasil surge como uma alternativa viável para a redistribuição de fluxos no Atlântico Sul, especialmente através de investimentos em infraestrutura e novas parcerias técnico-comerciais.
Suape e a Diplomacia Portuária Asiática
Diferente da crise panamenha, o Complexo de Suape, em Pernambuco, avança na consolidação de sua rede global. Sob a gestão de Armando Monteiro Bisneto, o porto assinou memorandos de entendimento com a Westports Malaysia e a Northport, gigantes do setor portuário na Malásia localizados no estratégico Estreito de Malaca. Os acordos visam a criação de linhas marítimas de longo curso e o fortalecimento da interligação entre os complexos, posicionando Suape como a principal porta de entrada brasileira para os mercados do Sudeste Asiático.
A Westports Malaysia, décimo maior terminal de contêineres do mundo com movimentação de 12 milhões de TEUs em 2025, sinalizou interesse em investimentos estratégicos no terminal pernambucano. Essa cooperação técnica, apoiada pelo Ministério das Relações Exteriores e pela Frente Parlamentar Mista Brasil-ASEAN, demonstra uma busca ativa por eficiência e integração logística. A estabilidade institucional brasileira, comparada ao atual imbróglio panamenho, torna-se um ativo valioso na atração desses fluxos asiáticos.
Performance Operacional do Nordeste
Os números comprovam a maturidade do setor aquaviário nordestino. Em 2025, a região movimentou 329,7 milhões de toneladas de cargas, com um crescimento expressivo de 9,4% na operação de contêineres, segundo dados da Antaq compilados pelo Ministério de Portos e Aeroportos. O ministro Silvio Costa Filho ressaltou que o Nordeste se consolidou como um hub logístico competitivo, integrando a indústria local às cadeias globais de suprimentos com alta eficiência operacional.
Especificamente em Suape, o ano de 2026 iniciou com um crescimento robusto de 38,6% na movimentação de cargas apenas em janeiro, totalizando mais de 2,1 milhões de toneladas. O destaque absoluto ficou com os granéis líquidos, que apresentaram alta de 57,7%, reafirmando a liderança nacional do porto nesse segmento entre os terminais públicos. O aumento de 26,2% no número de atracações de navios no primeiro mês do ano reflete o aquecimento das atividades e a crescente confiança dos armadores globais na infraestrutura de Pernambuco.
Perspectivas para o Futuro Logístico
A convergência entre a instabilidade no Panamá e o crescimento técnico de Suape sugere uma reconfiguração das rotas marítimas no hemisfério sul. A transferência de operações para a Maersk no Canal do Panamá poderá, paradoxalmente, levar a gigante dinamarquesa a valorizar ainda mais a estabilidade e o potencial de crescimento do Nordeste brasileiro como ponto estratégico de apoio e distribuição de carga.
A evolução observada nos terminais nacionais indica que, apesar dos obstáculos históricos de infraestrutura, o Brasil avança na direção correta ao profissionalizar a gestão portuária e buscar parcerias internacionais sólidas. O fortalecimento de Suape como hub internacional é um sinal claro de que, mesmo diante de um cenário global volátil, a persistência na modernização técnica e na segurança jurídica gera resultados concretos para o desenvolvimento econômico do país.