O cenário do transporte marítimo e hidroviário global em fevereiro de 2026 apresenta um contraste profundo entre a vanguarda tecnológica internacional e os impasses estruturais brasileiros. Enquanto nações como China e Noruega consolidam projetos de emissão zero e alta eficiência operacional, o Brasil enfrenta um cenário de incertezas na agenda de concessões de infraestrutura, motivado por tensões sociais e pressões ambientais na Região Amazônica.

Inovação Nuclear na China

A China, através da Corporação Estatal de Construção Naval da China (CSSC) e da Corporação Nacional Nuclear da China, está finalizando o projeto de um navio porta-contêineres inovador de 14.000 TEUs. A embarcação será movida por um reator nuclear de sal fundido de tório (TMSR), tecnologia que promete emissão zero de gases de efeito estufa. As autoridades chinesas preveem que as avaliações técnicas sejam concluídas ainda em 2026, com o início da construção previsto para antes do final desta década.

Este projeto utiliza um sistema de circuito fechado capaz de gerar centenas de megawatts de energia térmica. Segundo engenheiros da CSSC, a tecnologia de sais fundidos de tório é considerada mais segura e eficiente que os reatores tradicionais de urânio, operando em altas temperaturas e baixas pressões, o que evita o risco de fusão do núcleo. Contudo, a operação comercial desses gigantes nucleares ainda depende de regulamentações da Organização Marítima Internacional (IMO), que ainda não foram totalmente estabelecidas.

Eficiência Offshore na Noruega

Paralelamente, a norueguesa Ulstein lançou a embarcação submarina SX232, voltada para os mercados de energia eólica offshore e petróleo e gás. O projeto destaca-se pelo design de casco Ulstein Twin X-Stern e um sistema inteligente de propulsão que minimiza o consumo de energia. A embarcação integra recuperação de calor residual e armazenamento em baterias, visando a redução de picos de demanda energética.

Com capacidade para 130 pessoas e equipada com hangares para veículos operados remotamente (ROVs), a plataforma da Ulstein reflete a tendência global de versatilidade e descarbonização. O navio é capaz de operar com guindastes de até 400 toneladas, suportando instalações complexas em ambientes marítimos desafiadores, consolidando a Noruega como líder em logística offshore de alta tecnologia.

Dilemas Logísticos no Brasil

Em sentido oposto à aceleração tecnológica externa, o Brasil lida com entraves na gestão de seus ativos. O secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos, anunciou em 23 de fevereiro de 2026 a revogação do Decreto 12.600. A norma autorizava a inclusão das hidrovias dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND), prevendo dragagens e privatizações que eram defendidas pelo setor produtivo para baratear o escoamento de cargas.

A decisão do governo federal ocorreu após intensos protestos de comunidades indígenas e ribeirinhas, que ocuparam terminais privados, como o da Cargill em Santarém, alegando impactos negativos na pesca e na qualidade da água. A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, reforçou que a revogação atende à necessidade de proteger os territórios e garantir a segurança alimentar das populações locais que dependem diretamente dos rios.

Impacto Econômico e Setorial

O recuo na privatização das hidrovias gerou forte reação de entidades como a Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP) e a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). Em nota conjunta, o setor produtivo denunciou atos de vandalismo nos terminais e alertou para os riscos à segurança jurídica e operacional da logística nacional, essencial para manter o ritmo de crescimento das exportações.

Apesar dos conflitos, a balança comercial brasileira demonstrou robustez, alcançando uma corrente de comércio de US$ 72,6 bilhões entre janeiro e a segunda semana de fevereiro de 2026. Houve um crescimento de 20,7% nas exportações em comparação ao mesmo período de 2025, impulsionado principalmente pela indústria extrativa e de transformação, setores que dependem diretamente de uma infraestrutura logística ágil para manter sua competitividade global.

Debate Legislativo e Conclusão

Na Câmara dos Deputados, a Comissão da Amazônia debate o PDL 942/25, proposto pelos deputados Célia Xakriabá (Psol-MG) e Airton Faleiro (PT-PA), que busca sustar os efeitos do decreto de desestatização. Os parlamentares argumentam que os rios amazônicos não devem ser vistos apenas como infraestrutura logística, mas como elementos culturais e ambientais fundamentais. O impasse ressalta o desafio brasileiro em equilibrar o crescimento econômico com a sustentabilidade social.

Em resumo, enquanto a fronteira tecnológica mundial caminha para a autonomia nuclear e automação offshore, o Brasil ainda busca definir um modelo de gestão para suas hidrovias que concilie os interesses do agronegócio e da indústria com os direitos das comunidades tradicionais. A superação desse gargalo regulatório será decisiva para que o país não apenas exporte volumes recordes, mas também modernize sua matriz de transporte conforme os padrões de inovação globais.