O Avanço Tecnológico da Esquadra Brasileira
A Marinha do Brasil deu um passo significativo em seu programa de modernização ao receber o sistema integrado de navegação e ponte (INBS) da empresa alemã Anschütz para a primeira fragata da nova classe Tamandaré. A entrega e comissionamento do sistema SYNAPSIS ocorreram no estaleiro TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí (SC), onde o navio está sendo construído pela SPE Águas Azuis, marcando uma etapa crucial em um dos mais avançados projetos de construção naval do país.
O sistema fornecido pela Anschütz é baseado em tecnologias de navegação padronizadas, o que garante alta confiabilidade, manutenção simplificada e prontidão operacional contínua. A solução inclui estações de trabalho multifuncionais que integram radar, cartas náuticas eletrônicas (ECDIS), piloto automático e o sistema global de socorro e segurança marítima (GMDSS). Essa integração proporciona à tripulação uma visão operacional clara e unificada, essencial para a navegação segura em diversas missões.
Um dos pilares do programa da classe Tamandaré é a transferência de tecnologia. Em linha com essa diretriz, a equipe local da Anschuetz do Brasil foi responsável pelo comissionamento do sistema e permanecerá como ponto de contato para serviços técnicos e manutenção ao longo de toda a vida útil dos navios. A plataforma SYNAPSIS também é escalável, permitindo que a Marinha adapte e amplie suas capacidades no futuro com novas funcionalidades e sensores, garantindo a longevidade e eficácia das fragatas.
O Contraste da Estratégia Americana
Enquanto o Brasil aposta na colaboração internacional para se modernizar, o governo dos Estados Unidos apresentou um Plano de Ação Marítima com um viés fortemente protecionista. A medida mais impactante é a proposta de restabelecer taxas portuárias sobre importações transportadas em navios construídos no exterior, uma iniciativa que visa revitalizar a indústria naval americana e que ainda depende de aprovação do Congresso.
O plano americano é ambicioso e detalha cenários de arrecadação que podem variar de 66 bilhões a 1,5 trilhão de dólares em dez anos, dependendo do valor da tarifa aplicada por quilo de carga. Como a vasta maioria da frota mundial de contêineres foi fabricada fora dos EUA, a medida afetaria quase todo o setor de transporte marítimo global, sinalizando uma clara intenção de proteger e incentivar a produção doméstica.
A estratégia dos EUA está estruturada em quatro pilares principais: reconstruir a capacidade de construção naval, expandir a formação de pessoal marítimo, fortalecer o comércio e as compras governamentais para aumentar a demanda por embarcações de bandeira americana e outras medidas focadas na segurança nacional. O plano propõe, inclusive, elevar a porcentagem de carga governamental que deve ser transportada exclusivamente em navios de bandeira americana, atualmente fixada em 50%.
Um Dilema para a Soberania Nacional
A justaposição dessas duas abordagens — a brasileira, de importação de tecnologia de ponta, e a americana, de fortalecimento da indústria interna — expõe um dilema estratégico para o Brasil. A aquisição de sistemas como o da Anschütz é inegavelmente um salto qualitativo para a capacidade operacional da Marinha, garantindo interoperabilidade com padrões internacionais e acesso ao que há de mais moderno no mercado.
No entanto, a iniciativa dos EUA serve como um lembrete da importância da soberania industrial, especialmente em um setor estratégico como o de defesa. A dependência de tecnologia estrangeira, mesmo com cláusulas de transferência de conhecimento, pode criar vulnerabilidades a longo prazo. A questão que se impõe é se o modelo adotado pelo Brasil é suficiente para fomentar uma base industrial de defesa robusta e autônoma, capaz de desenvolver e produzir sistemas críticos no futuro, ou se ele perpetua um ciclo de dependência tecnológica.