O Paradoxo Brasileiro Sucesso na Exportação Ameaçado por Custos Internos

Enquanto o agronegócio e a logística portuária brasileira comemoram marcos históricos de exportação no início de 2026, uma ameaça interna surge no horizonte. De um lado, entidades como a Abrafrutas e terminais como a Portonave expandem sua presença global. Do outro, o debate sobre o fim da jornada de trabalho 6x1 levanta sérias preocupações sobre o aumento do "Custo Brasil", um fator que pode minar a competitividade duramente conquistada no mercado internacional.

Recordes no Campo e nos Portos

O cenário atual é de otimismo para os exportadores. A Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), em parceria com a ApexBrasil, consolidou o protagonismo do país na Fruit Logistica, em Berlim. A participação resultou em números recordes para 2025, com um crescimento de 12% em valor, alcançando quase US$ 1,5 bilhão em receitas. Segundo Jorge de Souza, gerente técnico da Abrafrutas, a expectativa é que os negócios gerados na feira resultem em cerca de US$ 600 milhões em oportunidades comerciais.

Acompanhando esse sucesso, a infraestrutura logística demonstra sua força. A Portonave, em Santa Catarina, anunciou recentemente que sua câmara frigorífica, a Iceport, obteve habilitação para armazenar cargas de origem animal para a Coreia do Sul. Esta conquista, que se soma a um aumento de 12% no volume de cargas com temperatura controlada no último ano, evidencia a eficiência e a capacidade do setor portuário em atender mercados exigentes.

A Ameaça do Custo Trabalhista

No entanto, essa trajetória de sucesso pode ser abalada por discussões internas. Em um artigo recente, Gilberto Seleme, presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC), alertou para os perigos do debate sobre o fim da escala 6x1. Seleme argumenta que a discussão está sendo "perigosamente contaminada por interesses eleitorais" e que uma mudança estrutural de tal magnitude não pode ser tratada com oportunismo.

Para o setor produtivo, a redução da jornada sem a correspondente redução salarial só é viável com duas premissas: aumento real da produtividade e livre negociação, mecanismos já previstos na Reforma Trabalhista de 2017. A realidade, segundo Seleme, é que 86% dos trabalhadores industriais em Santa Catarina ainda cumprem 44 horas semanais devido às "duras condições competitivas".

Impacto Econômico e Competitividade Global

Os números apresentados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) são alarmantes. A projeção aponta um impacto de R$ 179 bilhões ao setor produtivo e R$ 150 bilhões ao setor público, com uma elevação de 25% no custo do emprego. Na prática, isso poderia resultar em aumento de preços ao consumidor, crescimento da informalidade e, consequentemente, desemprego.

Seleme destaca que o cenário internacional é de forte concorrência, com gigantes asiáticos e vizinhos como o México mantendo jornadas de 48 horas ou mais. Até mesmo países desenvolvidos como Alemanha, Dinamarca e Suíça permitem jornadas semanais de 48 a 50 horas. "Ignorar isso é condenar a indústria nacional", afirma.

A Conta Chega à Cadeia Logística

O potencial aumento de custos não se restringe à indústria. Ele se espalha por toda a cadeia produtiva e logística. Para os produtores de frutas e carnes, os custos mais altos com mão de obra diminuem as margens e a capacidade de investimento em tecnologia. Nos portos, como a Portonave, o aumento dos encargos trabalhistas impactaria diretamente o custo da movimentação e armazenagem de cargas, tornando o serviço logístico brasileiro mais caro e menos atraente.

Encruzilhada para o Futuro

O Brasil se encontra em uma encruzilhada. Os sucessos da Abrafrutas e da Portonave mostram o imenso potencial do país como um fornecedor global confiável e competitivo. Contudo, para que esse potencial se concretize de forma sustentável, é crucial que as políticas internas sejam alinhadas com a realidade econômica. O debate sobre a jornada de trabalho precisa ser conduzido com responsabilidade técnica, e não populismo, sob o risco de o "Custo Brasil" anular os avanços conquistados e comprometer o futuro das exportações nacionais.