Crescimento das Exportações Pressiona a Infraestrutura

O aquecimento do comércio exterior brasileiro, impulsionado por novos contratos e recordes de produção, está acelerando a necessidade de uma infraestrutura logística mais eficiente e sustentável. Um exemplo claro dessa nova fase é o anúncio da FS, produtora de etanol e ração animal, que em fevereiro de 2026 realizará sua primeira exportação de high-protein dried distillers grains (HPDDG) para a China. Este marco, envolvendo um lote inicial de três mil toneladas métricas que já se encontra no Porto de Santos, evidencia a crescente demanda por produtos brasileiros de alto valor agregado e a urgência em otimizar as rotas de escoamento.

Segundo Victor Trenti, diretor comercial da FS, a operação com o mercado chinês reforça o potencial do Brasil no setor de ingredientes para nutrição animal e abre um novo capítulo para a cadeia do milho. A empresa projeta exportar mais de 50 mil toneladas no ciclo 25/26, com planos de dobrar esse volume com a consolidação das vendas para a China, o que exigirá uma logística robusta e integrada para conectar suas unidades no Mato Grosso aos portos nacionais.

Este cenário de expansão não é isolado. Em 2025, o Brasil consolidou sua posição como o maior exportador mundial de carne bovina, movimentando 3,45 milhões de toneladas e gerando uma receita de 18 bilhões de dólares, um crescimento de 39,31% em relação ao ano anterior. Os principais portos, como Santos (SP) e Paranaguá (PR), operaram em volumes recordes, sublinhando a pressão crescente sobre a capacidade e a sustentabilidade das operações portuárias e de transporte.

A Resposta Multimodal e Sustentável

Diante desse volume crescente, a dependência histórica do modal rodoviário, que responde por 62,2% do transporte de mercadorias no país, revela-se um gargalo tanto econômico quanto ambiental. A solução para este desafio está no centro da estratégia do governo federal, que, por meio do Ministério dos Transportes, planeja investir R$ 140 bilhões em 2026 para reconfigurar a matriz logística nacional através da integração multimodal.

O Plano Nacional de Logística 2035 projeta uma expansão significativa do transporte ferroviário, com um aumento previsto de 193%. O objetivo não é substituir o caminhão, mas sim otimizar a cadeia logística. “Quando há articulação entre diferentes modais, o país ganha escala, previsibilidade e competitividade. Não se trata de substituir o caminhão, mas de fazer com que cada meio opere onde é mais eficiente”, afirma Luciano Johnsson, CEO da Brado, empresa referência em logística multimodal.

A transição para o modal ferroviário em longas distâncias traz um benefício ambiental direto. De acordo com a Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), o transporte por trilhos pode emitir até 85% menos CO² em comparação com o rodoviário. Essa sinergia entre eficiência e sustentabilidade é crucial para que o Brasil mantenha sua competitividade no mercado global, que cada vez mais exige cadeias de suprimentos verdes.

Suape na Vanguarda da Energia Limpa

Enquanto o plano nacional avança em escala macro, iniciativas locais demonstram na prática como a sustentabilidade pode ser integrada à operação portuária. O Complexo Industrial Portuário de Suape, em Pernambuco, está acelerando sua transição energética com a meta de alcançar 50% de participação de energia limpa em seu consumo total ainda no primeiro semestre de 2026. Atualmente, 35,95% da energia utilizada pela estatal já provém de fontes renováveis.

A energia limpa abastece áreas críticas como o centro administrativo e os cais operacionais, além de projetos como o Viveiro Florestal, que é integralmente abastecido com energia solar. Suape também implementou um sistema inteligente de iluminação no Cais 5 e no pátio de veículos, que ajusta a intensidade da luz conforme a necessidade, gerando uma economia de aproximadamente 60% no consumo. Para o diretor-presidente de Suape, Armando Monteiro Bisneto, “esse é o caminho e estamos trabalhando fortemente para seguir avançando”.

A jornada dos produtos de empresas como a FS, desde o interior do país até os mercados internacionais, está se tornando um vetor de transformação para a logística brasileira. A convergência entre políticas de infraestrutura multimodal e a gestão portuária focada em inovação e sustentabilidade, como a de Suape, desenha um futuro onde o crescimento das exportações e a responsabilidade ambiental não são apenas compatíveis, mas interdependentes para o sucesso do Brasil no comércio global.