Um Panorama de Contrastes
O Brasil apresenta um cenário econômico de duas velocidades. De um lado, a indústria de transformação demonstra uma notável resiliência, mantendo sua posição em rankings globais de produção e exportação, conforme aponta um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Do outro, a infraestrutura logística do país revela uma forte concentração na Região Sudeste, um gargalo que limita o potencial de desenvolvimento de outras regiões. Essa disparidade entre a estabilidade macroeconômica e a realidade logística foi evidenciada por dados divulgados pela CNI e pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) em fevereiro de 2026, referentes aos anos de 2024 e 2025, respectivamente.
Estabilidade Industrial em um Cenário Desafiador
O estudo “Indústria no Mundo”, realizado pela CNI com base em dados da UN Comtrade e da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), mostrou que a indústria brasileira manteve sua participação de 0,92% no mercado global de exportações em 2024, ocupando a 30ª posição pelo terceiro ano consecutivo. Na produção global, o país ficou na 15ª colocação, com 1,17% de participação, apesar de uma ligeira queda de 0,01%.
Segundo Constanza Negri, gerente de comércio e integração internacional da CNI, os resultados indicam a resiliência do setor em um ambiente externo adverso. As exportações brasileiras de bens industrializados cresceram 2,7% em 2024, superando a média mundial de 2,1%, impulsionadas principalmente pelo aumento no volume exportado. Da mesma forma, o valor da produção industrial nacional cresceu 2,3%, alavancado pela recuperação da demanda doméstica.
Apesar dos números positivos, o estudo também ressalta que a participação do Brasil no total mundial segue pressionada por uma tendência de perda relativa de longo prazo, iniciada na década de 1990. Ainda assim, o desempenho brasileiro se destacou frente a parceiros comerciais como Alemanha e Japão, que perderam participação no mercado global.
A Realidade da Concentração Logística no Sudeste
Em forte contraste com a estabilidade industrial, os dados do transporte aéreo de 2025, compilados pelo MPor a partir de um relatório da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), escancaram a centralização da infraestrutura logística. A Região Sudeste dominou o setor, concentrando sozinha 47% de todos os passageiros do mercado doméstico, totalizando 101 milhões de pessoas.
Os aeroportos de Guarulhos (SP) e Congonhas (SP) foram os principais responsáveis por esse volume, respondendo por 14,7% e 11,8% do movimento nacional, respectivamente. No mercado internacional, a concentração é ainda mais acentuada: Guarulhos e o Galeão (RJ) somaram 38,7% de todo o fluxo de passageiros. A ponte aérea Congonhas-Santos Dumont (RJ) foi a rota mais movimentada do país, com 3,9 milhões de passageiros.
Essa hegemonia não se restringe ao transporte de pessoas. No segmento de cargas, o Sudeste também lidera com folga. Guarulhos concentrou 27% de todo o mercado de carga aérea, seguido por Viracopos (SP) com 10,8%. A rota cargueira mais importante de 2025 foi entre Guarulhos e Miami (EUA), evidenciando a importância estratégica da região para o comércio exterior.
O Desafio do Desenvolvimento Equilibrado
A justaposição desses dois cenários levanta questões críticas sobre o futuro do desenvolvimento brasileiro. A resiliência da indústria, celebrada pela CNI, pode ser insuficiente para impulsionar um crescimento sustentável e equilibrado se a infraestrutura não acompanhar essa evolução de forma distribuída pelo território nacional. A concentração logística no Sudeste cria gargalos, encarece o transporte para empresas localizadas em outras regiões e limita a competitividade de polos industriais emergentes.
Para que o Brasil transforme sua estabilidade macroeconômica em um avanço consistente, é imperativo investir em soluções tecnológicas e em políticas que descentralizem a infraestrutura logística. A modernização de portos, aeroportos e malhas de transporte em outras regiões é fundamental para reduzir custos, otimizar o escoamento da produção e, finalmente, conectar os dois ritmos do país em uma única cadência de desenvolvimento integrado.