A inteligência artificial marítima está avançando por duas vias em 2026, com diferentes níveis de maturidade e aplicação. O PortXL selecionou 11 startups para sua turma de 2026 em Roterdã, enquanto a Prio e a Shape Digital firmaram um acordo para aplicar a plataforma Shape Lighthouse em unidades offshore na Bacia de Campos. A aproximação entre os anúncios está na diversidade de usos da tecnologia, não em uma parceria entre as empresas: de um lado, uma solução entra em um programa de aceleração; de outro, uma plataforma já foi contratada para apoiar a gestão de ativos operacionais.

Roterdã testa o mercado antes da operação

Entre mais de 250 candidatos globais, o PortXL escolheu 11 startups e scale-ups para a edição de 2026, programada para ocorrer em Roterdã entre 6 de outubro e 3 de dezembro. O programa oferece acesso a mercado, capital e uma rede de mentores, estrutura que coloca as empresas em contato com organizações capazes de avaliar aplicações marítimas em condições comerciais. A seleção não representa, por si só, a adoção imediata das soluções por um armador ou operador, mas cria uma etapa organizada para validar produtos, ampliar relacionamentos e buscar oportunidades de implantação.

Entre as empresas selecionadas está a Elnav, da Croácia, incluída na categoria Maritime & Offshore. A startup desenvolve tecnologia de inteligência artificial marítima com participação humana para apoiar a vigilância a bordo, os procedimentos críticos e o treinamento de liderança em emergências. Essa proposta desloca o uso da IA para a camada operacional e comportamental da navegação, na qual a ferramenta atua como apoio à tripulação em atividades que exigem acompanhamento humano, preparação e resposta coordenada.

A trajetória do PortXL ajuda a dimensionar a função da aceleração. Desde 2015, o programa já acelerou 141 startups e registra uma taxa de sobrevivência de 76%, segundo os dados divulgados para a edição de 2026. A iniciativa também conta com apoio institucional em Roterdã e do Ministério da Defesa para apoiar a transição energética e a resiliência marítima. O resultado esperado nessa fase é aproximar soluções em desenvolvimento de organizações que possam testar sua utilidade, antes que elas alcancem contratos de operação em escala maior.

Na Bacia de Campos, o ativo entra na equação

Quatro unidades da Prio receberão a plataforma Shape Lighthouse no acordo firmado com a Shape Digital. O escopo inclui o FPSO Forte, em Albacora Leste, o FPSO Frade, o FPSO Bravo, em Tubarão Martelo, e a plataforma Wellhead Polvo A. Juntas, essas instalações têm capacidade de processamento de até 380 mil barris por dia e armazenamento superior a um milhão de barris. A dimensão dos ativos dá ao projeto uma aplicação direta sobre equipamentos e processos que sustentam a produção offshore.

A plataforma utiliza mais de 200 modelos de inteligência artificial combinados a equações de engenharia para apoiar a manutenção preventiva e a gestão de riscos. O objetivo anunciado é reduzir em até 15% as paradas operacionais indesejadas. A formulação é uma meta de desempenho, não um resultado já comprovado, e sua avaliação dependerá da implementação nos quatro ativos, da qualidade dos dados disponíveis e da capacidade da ferramenta de transformar sinais de operação em decisões de manutenção.

A expansão da Shape Digital também alcança operações internacionais. A startup brasileira, criada como spin-off da Modec, abriu um escritório em Houston em 2025 e tem entre seus clientes a Petrobras, com monitoramento nos FPSOs Almirante Barroso e Anita Garibaldi, e a Equinor, no campo de Bacalhau. A empresa estima gerar US$ 160 milhões em produção adicional anual para seus clientes e economizar US$ 1,5 milhão em custos de reparo por unidade a cada ano, projeções que colocam a manutenção preditiva no centro da proposta comercial.

Duas réguas para a IA marítima

Os dois movimentos mostram que a adoção de inteligência artificial começa em pontos diferentes da cadeia de inovação. No caso do PortXL, o foco está em selecionar empresas, conectá-las a mentores e aproximá-las do mercado. Na frente offshore, o acordo entre a Prio e a Shape Digital parte de um ativo definido, de uma plataforma especificada e de uma meta operacional mensurável. São etapas distintas, e misturá-las criaria a impressão incorreta de que a Elnav será adotada pela Prio ou de que as duas iniciativas pertencem ao mesmo programa.

A diferença também aparece no tipo de problema enfrentado. A Elnav trabalha com apoio à vigilância, a procedimentos críticos e ao treinamento de liderança, mantendo a participação humana como parte da solução. A Shape Lighthouse atua sobre a gestão de ativos, com modelos de IA e equações de engenharia voltados à antecipação de falhas e à manutenção preventiva. Para operadores marítimos, essa separação ajuda a definir critérios de compra: uma ferramenta pode ser examinada pela contribuição à tomada de decisão da tripulação, enquanto outra precisa ser acompanhada por indicadores de disponibilidade e paradas.

O próximo marco do programa de startups ocorrerá entre 6 de outubro e 3 de dezembro de 2026, em Roterdã, quando as empresas selecionadas terão acesso à estrutura de aceleração. Na operação offshore, o acordo já estabeleceu quatro unidades como campo de aplicação e fixou a referência de redução de até 15% nas paradas indesejadas. A evolução da IA marítima será observada, portanto, por duas métricas diferentes: a capacidade de transformar uma solução em oportunidade comercial e a comprovação de ganhos em ativos que já integram a produção.