Os portos globais entraram em agosto e setembro de 2026 com riscos maiores de congestionamento, enquanto a Kaleris planejou o Cargo Data Exchange Hub para aproximar operações de navios e terminais e a Portbase lançou, em 18 de maio, o Cargo Controller Export. As iniciativas buscam organizar dados de escalas, cargas e cronogramas para apoiar decisões entre diferentes participantes da operação portuária. A movimentação ganha peso porque os tempos de espera aumentaram e a expansão da capacidade dos terminais ficou abaixo do crescimento dos volumes movimentados, pressionando infraestruturas que já operam com alta utilização.
A fila começa antes da atracação
Um relatório da Drewry indica que os tempos médios de espera em portos globais quase dobraram nos primeiros sete meses de 2026 em comparação a 2019. O dado coloca a disponibilidade de informação no centro da gestão da escala, porque a fila deixa de ser um evento isolado no cais e passa a afetar a programação de navios, terminais e cargas. Quando os participantes trabalham com horários diferentes ou atualizações defasadas, a capacidade existente fica mais difícil de coordenar, justamente no momento em que os tempos de atendimento já avançam.
O tempo médio de permanência de navios porta-contêineres nos portos subiu 31% no período, com maior proporção do tempo gasto esperando por atracação. A espera pelo berço indica que parte do problema está na sincronização entre a chegada da embarcação e a prontidão da infraestrutura, e não apenas na execução das operações depois da atracação. Ferramentas que reúnem eventos de chegada, disponibilidade e alterações de cronograma procuram atuar nessa lacuna informacional, embora as fontes não apresentem uma redução comprovada dos tempos de permanência.
Entre os fatores apontados estão o crescimento da capacidade portuária abaixo do crescimento dos volumes, de 21% contra 28%, e a alta utilização dos terminais. A diferença reduz a margem disponível para absorver variações na programação, enquanto terminais com 90% de utilização levam mais tempo para recuperar os fluxos após interrupções do que instalações com 75% de ocupação. Nesse ambiente, o compartilhamento de dados funciona como instrumento de coordenação, pois permite que decisões sobre chegada, berço e sequência operacional partam de uma referência comum.
Uma visão comum para a escala
Foi nesse ponto que a Kaleris anunciou o planejamento do Cargo Data Exchange Hub, uma iniciativa destinada a integrar as operações entre navios e terminais. O objetivo é criar uma visão operacional compartilhada para apoiar a tomada de decisões ao longo do ciclo de vida da escala portuária. A proposta desloca o foco da troca fragmentada de mensagens para a organização dos eventos que determinam o atendimento da embarcação, desde a preparação até a conclusão das atividades no terminal. O projeto ainda está descrito como planejamento, sem indicadores divulgados de desempenho ou prazo de implantação.
Outra frente utiliza inteligência artificial para antecipar mudanças na operação marítima. Em 31 de agosto de 2026, a Global Spatial Technology Solutions anunciou o rebranding para OCIANA, unificando o nome corporativo ao de sua principal plataforma de inteligência marítima. A solução utiliza IA para prever chegadas, sincronizar a velocidade dos navios com a prontidão portuária e monitorar congestionamentos. Esses recursos são apresentados como meios para reduzir emissões e aumentar a resiliência da cadeia de suprimentos marítima, mas as fontes não informam resultados operacionais alcançados.
A OCIANA também foi apresentada como uma camada de conexão para sistemas de gestão portuária e navegação já existentes, em vez de uma substituição completa dessas estruturas. A empresa planeja ampliar a rede conectada para incluir portos, companhias marítimas e autoridades de pilotagem, substituindo a coordenação baseada em telefone, e-mail e papel por uma visão compartilhada em tempo real. Essa arquitetura aproxima a previsão da execução, porque a informação sobre a chegada prevista pode ser relacionada à prontidão do porto e às condições de atendimento antes que a embarcação entre na fila.
Da API ao planejamento da carga
A experiência da Portbase mostra como o compartilhamento pode começar por um fluxo específico da cadeia logística. Lançado em 18 de maio de 2026, o Cargo Controller Export permite o rastreamento em tempo real das cargas e a gestão de cronogramas de exportação. O serviço organiza informações que precisam circular entre usuários, sistemas internos e participantes da operação, oferecendo uma base para acompanhar alterações ao longo do processo. Em vez de depender exclusivamente de consultas isoladas, o usuário passa a trabalhar com eventos atualizados em uma estrutura digital voltada ao fluxo de exportação.
A API do Cargo Controller Export foi desenvolvida sob os padrões BDI, ou Basic Data Infrastructure, permitindo a integração automática com sistemas internos usados no desembaraço aduaneiro e no planejamento. A conexão elimina a necessidade de entrada manual de dados e de consultas manuais em sites de terminais e armadores. Esse desenho reduz etapas de transcrição e cria uma passagem direta entre o evento operacional e o sistema que precisa utilizá-lo, condição necessária para que a informação tenha valor no planejamento e não permaneça restrita a uma tela ou organização.
As soluções descritas ocupam camadas diferentes da coordenação portuária. Uma concentra-se na colaboração entre navios e terminais durante a escala, outra organiza o fluxo de exportação por API e a terceira acrescenta previsão e inteligência sobre chegadas e congestionamentos. O ponto comum está na transformação de dados dispersos em uma referência operacional compartilhada, mas cada proposta tem escopo próprio e não deve ser tratada como se produzisse o mesmo resultado. Até o momento, os materiais analisados descrevem objetivos, funcionalidades e planos de expansão, sem divulgar indicadores que permitam medir ganhos efetivos de produtividade ou redução de filas.
A contribuição mais imediata do compartilhamento de dados está na possibilidade de alinhar decisões antes que a espera se converta em permanência adicional no porto. A Kaleris trabalha na integração entre navios e terminais, enquanto a OCIANA acrescenta previsão de chegada e coordenação de velocidade associada à prontidão portuária. Juntas, essas frentes ilustram uma mudança de método: o dado deixa de servir apenas ao registro posterior da operação e passa a apoiar a preparação da escala, a identificação de congestionamentos e a comunicação entre organizações que dependem umas das outras.
Os próximos passos anunciados concentram-se na ampliação da integração. A Kaleris planeja desenvolver o Cargo Data Exchange Hub para sustentar uma visão operacional comum ao longo da escala, e a OCIANA pretende expandir sua rede para conectar portos, companhias marítimas e autoridades de pilotagem. O avanço dependerá da adesão dos participantes e da capacidade de conectar sistemas existentes sem criar novas ilhas de informação. Enquanto as filas continuarem pressionando terminais com alta utilização, a qualidade e a circulação dos dados serão tão importantes quanto a ferramenta escolhida para tratá-los.