Navios passaram a esperar até dez dias para atracar nos portos de Xangai e Ningbo após a passagem do tufão Saudel, segundo dados da Linerlytica divulgados pela The Loadstar. O evento climático interrompeu operações e deixou embarcações acumuladas diante de terminais importantes do Leste Asiático. Para armadores, terminais e equipes de planejamento, a fila desloca a incerteza para o ponto mais sensível da escala, o horário de entrada no berço.
O tufão prolongou a fila de atracação
A origem da interrupção está na relação direta entre a passagem do tufão Saudel e a formação de filas diante dos terminais. Quando as condições meteorológicas reduzem ou suspendem a operação, os navios deixam de cumprir a janela prevista para atracar. A embarcação permanece fundeada, enquanto as escalas seguintes se aproximam da mesma estrutura de berços. Esse acúmulo transforma uma interrupção pontual em uma sequência de esperas que afeta a programação de toda a instalação.
Em Ningbo-Zhoushan, a recuperação após fechamentos prolongados por tufões gerou acúmulo de navios. A pressão chegou aos portões de exportação: eles passaram a aceitar apenas cargas destinadas a navios com ETA de até sete dias. A sigla indica o horário estimado de chegada da embarcação, usada para sincronizar o recebimento da carga com a escala marítima. Na prática, o terminal restringe a entrada de contêineres quando a atracação ainda está distante, evitando ampliar a concentração no pátio.
A diferença entre os terminais mostra que a espera não se distribui de maneira uniforme. Em Yangshan, em Xangai, os tempos de espera ultrapassaram 12 dias, enquanto Waigaoqiao registrou média de oito dias. Os números variam conforme a instalação, a janela de serviço e a velocidade de recuperação depois da interrupção climática. Para quem administra uma escala, essa variação dificulta o uso de um único prazo de referência para todo o complexo portuário.
Berços e pátios passaram a disputar espaço
A fila diante dos berços também ganhou dimensão fora dos dois portos chineses. Dados da Linerlytica indicam que 4,3 milhões de TEUs aguardavam atracação globalmente, impulsionados pelos atrasos no Leste Asiático. O TEU corresponde à unidade equivalente a um contêiner de 20 pés e permite dimensionar a capacidade retida enquanto os navios não conseguem iniciar suas operações. Quanto maior o volume parado, maior a dificuldade de recompor a sequência de escalas.
Essa pressão aparece de forma diferente conforme o serviço marítimo. O CEO da Maersk, Vincent Clerc, afirmou que Xangai chegou a registrar espera de até 12 dias. A Hapag-Lloyd informou de cinco a seis dias em Yangshan para serviços da Gemini Cooperation e de sete a oito dias para os demais serviços; em Ningbo, os intervalos variavam de três a quatro dias para membros da aliança e chegavam a três dias nos outros serviços. A diferença revela que a programação depende da combinação entre terminal, serviço e janela operacional.
A ocupação do pátio acrescenta outra restrição à recuperação. No terminal Meishan, em Ningbo, a ocupação chegou a 95% a 100%, enquanto as tomadas para contêineres refrigerados alcançaram 94% de saturação. O pátio é o espaço onde as unidades permanecem organizadas antes do embarque ou depois do desembarque, e sua lotação reduz a capacidade de receber novos contêineres com fluidez. Quando a área física e os pontos de energia se aproximam do limite, a retomada dos berços não elimina imediatamente o acúmulo formado durante a paralisação.
A previsibilidade da escala ficou sob pressão
A combinação entre espera no berço e ocupação do pátio altera a forma como as equipes calculam uma escala. A atracação define quando começam o posicionamento do navio, o manuseio dos contêineres e a preparação para a saída. Se esse marco se desloca por vários dias, a programação deixa de trabalhar com um horário próximo do previsto e passa a lidar com uma janela variável. Essa diferença afeta a coordenação entre terminal, armador e carga sem exigir qualquer mudança formal na rota.
Por isso, a restrição baseada no ETA funciona como uma ferramenta de controle da entrada de exportações. Ao aceitar cargas apenas para navios com chegada estimada em até sete dias, Ningbo procura aproximar o fluxo de contêineres da capacidade efetivamente disponível para embarque. O procedimento também sinaliza que a gestão do congestionamento ocorre em mais de um ponto da operação. A fila marítima, o portão e o pátio passam a ser tratados como partes da mesma sequência operacional.
A instabilidade operacional já havia aparecido em outros momentos por motivos distintos. Em abril de 2025, o número de navios fundeados em Xangai e Ningbo variou por causa de névoa, manutenção de terminais e chegada de embarcações fora de suas janelas de atracação. A repetição de fatores diferentes mostra que a previsão da escala depende tanto do clima quanto da disciplina operacional e da disponibilidade da infraestrutura. O tufão Saudel, portanto, agravou uma sensibilidade que também pode ser ampliada por interrupções internas.
O conjunto de dados aponta para uma operação em que o tempo de espera precisa ser acompanhado por terminal e por serviço, e não apenas por uma média geral. Xangai e Ningbo chegaram a registrar filas de até dez dias, enquanto Yangshan, Waigaoqiao e Meishan apresentaram níveis distintos de pressão. O próximo ajuste para os gestores é manter a programação vinculada ao ETA, à ocupação do pátio e à condição dos berços. Esses indicadores permitem reagir às restrições já registradas sem transformar uma previsão de escala em promessa de horário.