A Autoridade Portuária de Santos iniciou em 25 de agosto de 2026 a instalação de uma rede privativa 5G no Porto de Santos, enquanto a Santos Brasil executa um ciclo de R$ 55 milhões em tecnologia para seus terminais entre 2023 e 2025. As iniciativas não formam um único projeto nem estão descritas como integradas, mas revelam duas camadas da digitalização portuária: uma infraestrutura dedicada para transmitir dados e aplicações capazes de transformar sinais operacionais em decisões sobre cargas, equipamentos e segurança.
A rede 5G prepara o caminho dos dados
A primeira camada é a conectividade. O projeto da APS faz parte do convênio Porto de Santos Conecta, firmado com o Itaipu Parquetec, e prevê investimento de cerca de R$ 31 milhões ao longo de três anos. A rede atenderá edifícios administrativos e áreas de cais em Valongo, Outeirinhos e Estuário, ampliando a infraestrutura de comunicação disponível para diferentes pontos do complexo portuário. A instalação descrita pela BNamericas cria a base para que dados produzidos no território do porto possam circular de forma organizada entre equipamentos, sistemas e centros de controle.
Essa infraestrutura não deve ser confundida com uma aplicação específica. O 5G é a camada de comunicação, enquanto um sensor, um sistema de gestão ou um gêmeo digital define quais dados serão coletados, processados e usados. A distinção evita uma conclusão precipitada: a existência da rede não significa que os sistemas da Santos Brasil já estejam conectados à estrutura da APS. O valor técnico está na possibilidade de aproximar, no futuro, fontes de dados que hoje pertencem a projetos e responsáveis diferentes, desde que existam padrões de acesso, segurança e governança.
A própria APS conduz outra frente de digitalização com finalidade distinta. O projeto de Gêmeo Digital prevê R$ 59,1 milhões em cinco anos para criar uma réplica virtual do complexo portuário. Essa ferramenta permitirá simular o tráfego de embarcações, o movimento de cargas e o uso de berços como em um laboratório virtual, sem alterar fisicamente a operação. A conexão com o 5G aparece, portanto, como uma possibilidade de arquitetura: quanto mais confiáveis forem os dados alimentados no modelo, mais aderente poderá ser a representação digital, embora as fontes não indiquem que os dois projetos já estejam integrados.
Os sensores levam a digitalização ao cais
No ambiente dos terminais, a Santos Brasil distribuiu o investimento de R$ 55 milhões entre R$ 36 milhões em tecnologias e R$ 19 milhões em infraestrutura de suporte. O pacote inclui Digital Twin e IoT, além de datacenter de hiperescala e conectividade SD-WAN. A empresa utiliza essas soluções para monitoramento em tempo real, segurança de cargas, eficiência operacional e redução do impacto ambiental. A tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta administrativa e passa a acompanhar eventos físicos que interferem diretamente no fluxo de contêineres.
Esse desenho aparece no monitoramento remoto de contêineres refrigerados e na identificação de vazamentos por meio de hidrômetros. O primeiro caso leva para os sistemas digitais informações sobre unidades que dependem de controle contínuo; o segundo transforma o consumo de água em sinal de uma possível ocorrência operacional. Em ambos, o dado nasce no equipamento ou na área monitorada e precisa chegar ao responsável pela decisão. É justamente nessa passagem que uma rede de comunicação dedicada pode complementar as aplicações, sem que isso signifique uma integração já realizada entre APS e Santos Brasil.
Na mesma lógica, a operação utiliza sensores de fadiga em caminhões e recursos de Machine Learning para ampliar a leitura sobre atividades realizadas no terminal. O sensor produz uma informação ligada à condição de condução, enquanto o aprendizado de máquina pode apoiar a interpretação de grandes volumes de registros. A fonte também inclui realidade aumentada no conjunto de tecnologias adotadas, aproximando instruções digitais das tarefas executadas no espaço físico. O ponto comum entre essas soluções é a transformação de ocorrências operacionais em dados que podem ser acompanhados e analisados.
Além das aplicações baseadas em sensores, a Santos Brasil incorporou modelos 3D ao ciclo de transformação digital. A representação tridimensional ajuda a organizar visualmente elementos do terminal e se relaciona com o uso de realidade aumentada, embora cada recurso tenha função própria. O investimento também contempla drones, segundo a descrição do pacote tecnológico da companhia. A variedade de ferramentas mostra que a digitalização não depende de uma única aplicação, mas de uma combinação entre coleta, representação, processamento e transmissão de informações.
Integração exige mais que conectividade
A separação entre as frentes públicas e privadas ajuda a identificar o que ainda precisa ser construído. A rede 5G da APS amplia a infraestrutura de comunicação em áreas definidas do porto; os sistemas da Santos Brasil geram dados a partir de suas operações e equipamentos. Para que uma informação produzida no terminal contribua para uma visão mais ampla do complexo, seriam necessários critérios compatíveis de compartilhamento e tratamento dos dados. As fontes consultadas não anunciam esse arranjo, por isso a conexão entre as iniciativas deve ser tratada como uma possibilidade técnica, não como um resultado já entregue.
A APS já vinha reforçando a base física de tecnologia da informação. Os investimentos em TIC da autoridade portuária ultrapassaram R$ 24,4 milhões entre 2024 e maio de 2025. Na região da Alemoa, a modernização incluiu cerca de 3 quilômetros de fibra óptica, que substituiu o rádio, e a ampliação do sistema de câmeras de 12 para 32 unidades, com investimento superior a R$ 3 milhões. Essa infraestrutura acrescenta uma camada de comunicação e vigilância em uma área estratégica de granéis líquidos, complementando a expansão prevista para o 5G.
O próximo passo institucional também passa pela criação do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Gestão Portuária, o CdtPort, formalizado pela APS em parceria com o Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos. A construção está prevista para 60 meses, e a autoridade anunciou R$ 4,2 milhões para projetos de inovação no biênio 2025-2027. Somados à rede 5G e aos modelos digitais, esses prazos indicam que a transformação tecnológica do Porto de Santos será formada por camadas sucessivas. O resultado dependerá menos da quantidade de ferramentas e mais da capacidade de fazê-las operar com objetivos, dados e responsabilidades bem definidos.