A conectividade em tempo real está avançando em duas camadas da operação portuária: o Porto de Santos implantará uma rede privativa 5G com prazo de execução de 36 meses, enquanto o Porto de Drammen, na Noruega, adotou o Portchain Connect em 27 de agosto de 2026 para atualizar o planejamento de atracações com dados das companhias marítimas. Santos concentra esforços na infraestrutura de comunicação, e Drammen aplica informações atualizadas à programação de berços. A diferença de abordagem mostra como a digitalização pode atuar tanto na transmissão de dados quanto na coordenação das escalas de navios.

Santos prepara a camada de comunicação

Em Santos, a Autoridade Portuária de Santos firmou convênio com o Itaipu Parquetec para criar uma rede privativa 5G dentro do projeto Conecta Santos. O acordo prevê execução ao longo de 36 meses e investimento estimado superior a R$ 30 milhões, valor equivalente a aproximadamente US$ 6 milhões. A iniciativa busca ampliar a capacidade de transmissão de dados dentro do complexo e criar uma base de comunicação para processos que dependem de informações contínuas entre equipamentos, equipes e áreas operacionais. A infraestrutura física, portanto, aparece como o primeiro passo da transformação planejada.

Essa rede foi concebida para apoiar a automação de processos logísticos e o monitoramento avançado das atividades portuárias. A proposta também inclui o uso de drones aéreos e subaquáticos, sistemas de controle de acesso e integração com Internet das Coisas e inteligência artificial. Na prática, a rede deverá permitir que dados coletados no espaço portuário circulem com maior capacidade e sejam utilizados por aplicações distintas. O projeto não se limita à conexão de dispositivos: ele organiza a infraestrutura necessária para que ferramentas de supervisão e controle possam operar sobre informações produzidas dentro do próprio porto.

As primeiras áreas contempladas pelo projeto incluem o Ponto de Inspeção Naval, a sede da APS e o Parque Valongo. Relatos sobre a instalação física também apontam intervenções em edifícios administrativos e nas zonas portuárias de Valongo, Outeirinhos e Estuário. Durante as obras, a autoridade portuária alertou para possíveis interdições de vias e para o aumento da circulação de veículos e equipamentos, com aplicação de sinalização e medidas de segurança. A implantação ainda depende do cumprimento de fases e validações técnicas pela Anatel, o que condiciona o cronograma tecnológico às etapas regulatórias.

A experiência da Brasil Terminal Portuário oferece uma referência já existente no complexo santista. O terminal opera uma rede 5G privativa própria desde julho de 2023, com redução da latência de 2.000 milissegundos para 15 milissegundos e aumento da largura de banda. Essa estrutura vem sendo utilizada para otimizar o monitoramento remoto de equipamentos e guindastes. O caso mostra uma aplicação operacional específica da conectividade privada, enquanto o Conecta Santos tem escopo voltado à infraestrutura da autoridade portuária e a diferentes áreas de controle, abrindo a discussão sobre como redes distintas podem atender funções igualmente necessárias.

Drammen leva o dado ao berço

No norte da Europa, a transformação ocorre em uma etapa diferente. O Porto de Drammen, cujas operações terminais são geridas pela Greenport Services AS, adotou o Portchain Connect para alinhar o planejamento de atracações com as companhias de navegação. O anúncio oficial ocorreu em 27 de agosto de 2026. O porto funciona como um hub logístico na Noruega, conectando transporte marítimo, rodoviário e ferroviário, o que amplia a necessidade de previsibilidade nas escalas e de coordenação entre os participantes da cadeia.

A plataforma recebe dos sistemas das transportadoras atualizações em tempo real sobre horários de escala e contagem de movimentos. Essas informações apoiam o alinhamento das janelas de atracação e aumentam a visibilidade sobre o planejamento dos berços. Em vez de depender exclusivamente de trocas manuais para acompanhar alterações, os parceiros marítimos passam a trabalhar com dados atualizados a partir dos sistemas das companhias. A tecnologia atua, assim, sobre a qualidade e a velocidade da informação usada na programação dos navios.

O objetivo operacional em Drammen é tornar as escalas de navios mais previsíveis e melhorar a comunicação com os parceiros marítimos. Uma mudança de horário ou de volume de movimentos pode afetar a disponibilidade de um berço e a sequência de atendimento, por isso a atualização contínua interfere diretamente na coordenação da escala. O Portchain Connect fornece uma referência compartilhada para esse planejamento, reduzindo o intervalo entre a alteração registrada pela transportadora e a informação recebida pelo porto.

A comparação com Santos deixa clara a separação entre as duas soluções. A rede 5G brasileira atua como uma camada de conectividade, voltada à transmissão de dados, à automação e ao monitoramento em áreas do complexo. Em Drammen, o Portchain Connect atua como uma camada de aplicação, usando atualizações dos sistemas das transportadoras para organizar janelas de atracação. As iniciativas têm finalidades relacionadas à visibilidade operacional, mas não há indicação de que serão integradas entre si. Cada porto escolheu uma frente tecnológica associada às suas próprias necessidades de gestão.

Essa distinção ajuda a evitar uma leitura simplificada sobre os chamados portos digitais. Melhorar a conectividade não produz automaticamente um novo método de planejamento, assim como uma plataforma de berços não substitui a infraestrutura que sustenta sensores, equipamentos e sistemas de controle. Em Santos, a prioridade está em criar uma rede com capacidade para diferentes aplicações portuárias. Em Drammen, o ganho nasce da circulação estruturada de dados entre o porto e as companhias de navegação. São movimentos complementares no debate setorial, mas com escopos técnicos diferentes.

Para os profissionais de operação, a consequência mais concreta está na possibilidade de separar decisões de infraestrutura das decisões de processo. A rede privativa de Santos pode sustentar aplicações que dependem de transmissão contínua e monitoramento em áreas portuárias, enquanto a solução usada em Drammen concentra-se no alinhamento de informações que determinam a ocupação dos berços. Essa leitura por camadas facilita a avaliação de investimentos, porque permite identificar se o gargalo está na comunicação entre dispositivos ou na atualização dos dados utilizados pelo planejamento de navios.

O cronograma brasileiro também mostra que projetos de conectividade exigem implantação progressiva. O Conecta Santos tem duração prevista de 36 meses e está sujeito a fases e validações técnicas da Anatel, enquanto a instalação física alcança áreas administrativas e zonas portuárias específicas. Drammen parte de uma aplicação já direcionada à troca de informações com transportadoras. A diferença de maturidade e de escopo impede comparações diretas de desempenho, mas oferece aos gestores duas referências para organizar a transformação digital: primeiro garantir a comunicação, ou primeiro estruturar o uso operacional do dado.

O avanço dessas duas iniciativas coloca a previsibilidade no centro da gestão portuária. Em Santos, a autoridade portuária pretende ampliar a base tecnológica para automação, monitoramento e controle; em Drammen, o foco está em atualizar a programação de atracações a partir dos sistemas das companhias marítimas. O ponto comum é a redução da distância entre o evento operacional e a informação usada para tomar decisões. Para cadeias de suprimentos que dependem de horários coordenados, essa redução melhora a capacidade de acompanhar mudanças sem confundir infraestrutura de rede com aplicação de planejamento.

Os próximos passos já estão definidos em cada frente. Em Santos, a implantação deverá avançar pelo prazo de 36 meses, pelas áreas previstas e pelas validações técnicas necessárias para a rede privativa 5G. Em Drammen, a plataforma continuará apoiando o alinhamento de berços por meio de atualizações de horários e movimentos recebidas dos sistemas das transportadoras. O complexo santista, que já conta com a experiência 5G da BTP, amplia sua base de conectividade em uma iniciativa de alcance institucional, enquanto o porto norueguês aprofunda o uso direto dos dados na programação marítima. A combinação dessas referências mostra que o crescimento tecnológico dos portos depende de aplicações bem definidas e de infraestrutura compatível com cada decisão operacional.