Um levantamento citado pelo BusinessGreen estima que 10% das emissões globais do transporte marítimo ocorrem nos portos e poderiam ser reduzidas com tecnologias de eletrificação. Em Portugal, a Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo iniciou a recuperação do quebra-mar da Barra do Douro para permitir a instalação planejada de uma unidade de energia das ondas de 1 MW da Eco Wave Power. As duas iniciativas tratam de etapas diferentes da transição energética: a eletrificação reduz emissões no consumo de navios e equipamentos, enquanto a força das ondas busca gerar energia renovável a partir de uma estrutura marítima existente.
Eletrificação leva a transição para o cais
O setor marítimo representa 12,7% das emissões de dióxido de carbono dos transportes na Europa, enquanto navios atracados emitiram 8,3 milhões de toneladas de CO2 em 2023. A conexão de energia de costa, conhecida como OPS, permite desligar os geradores de bordo durante a permanência no terminal e transferir o consumo para a rede terrestre. O regulamento AFIR exige que portos da rede TEN-T ofereçam esse serviço para 90% das escalas até 2030. A meta cria uma pressão operacional sobre os terminais, que precisam preparar instalações elétricas compatíveis com a frequência, a potência e o perfil de cada embarcação.
O avanço da eletrificação precisa alcançar os ativos que movimentam cargas dentro do porto. Equipamentos terrestres, como guindastes e tratores de terminal, consomem 15% da energia portuária e são responsáveis por 30% das partículas emitidas. A combinação entre a eletrificação desses equipamentos e o cold ironing para navios atracados pode reduzir de 30% a 60% as emissões associadas às embarcações. Para os operadores, a mudança envolve substituir fontes de combustível e reorganizar a infraestrutura de abastecimento, sem separar a política ambiental da disponibilidade elétrica necessária à operação.
Uma pesquisa publicada na Nature indica que a eletrificação completa de um porto tem potencial para reduzir mais de 60% das emissões de gases de efeito estufa. O estudo aponta o gerenciamento inteligente do carregamento de veículos e equipamentos como forma de evitar sobrecarga da rede elétrica, além da integração de geração solar fotovoltaica. Essa abordagem desloca a discussão da simples troca de motores para o controle da demanda, porque a capacidade da rede precisa acompanhar os ciclos de operação dos terminais. A eficiência da eletrificação, portanto, depende da coordenação entre consumo, carregamento e oferta de energia.
A adoção da energia de costa ainda exige mecanismos financeiros e regulatórios para sair do estágio de obrigação e chegar à operação cotidiana. Uma pesquisa da Frontiers in Marine Science sugere subsídios governamentais de 30% para equipamentos e metas de redução de emissões vinculadas a taxas de carbono. A eletrificação evita o uso de geradores a combustível fóssil a bordo e melhora a qualidade do ar em portos urbanos. Mesmo com a exigência europeia para 2030, um levantamento baseado em dados da DNV encontrou apenas 21% das conexões necessárias em operação ou contratadas em 31 portos europeus, indicando que a expansão física continua atrás da meta regulatória.
Leixões prende geração renovável ao quebra-mar
A Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo iniciou as obras de reabilitação do quebra-mar da Barra do Douro após danos causados por tempestades. A intervenção integra a manutenção de rotina da infraestrutura portuária e funciona como pré-requisito para a instalação do projeto de energia das ondas em Leixões. A conclusão dos reparos condiciona o cronograma de montagem da unidade, que foi planejada para aproveitar o molhe norte. O projeto mostra que a geração renovável em ambiente marítimo depende primeiro da capacidade estrutural da infraestrutura que receberá os equipamentos.
A unidade prevista terá capacidade instalada máxima de 1 MW e ficará sob responsabilidade da EW Portugal - Wave Energy Solutions. O sistema utilizará flutuadores e conversores de energia fixados na estrutura do quebra-mar norte da Barra do Douro. Os flutuadores captam o movimento das ondas, enquanto os conversores transformam essa movimentação em eletricidade, segundo a descrição técnica da Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo. A solução foi incluída no Roteiro de Transição Energética da autoridade portuária com o objetivo de apoiar a descarbonização das operações de Leixões.
O empreendimento foi lançado pela Eco Wave Power como seu primeiro projeto de energia das ondas em escala de megawatt em Portugal, dentro de um acordo de concessão de 20 MW com a APDL. A área de instalação é conhecida como The Gallery e fica sob o quebra-mar. Parte da estrutura deve ser convertida em um museu educacional de energia das ondas aberto ao público, aproximando a demonstração tecnológica da área portuária. A primeira fase foi aprovada em março de 2024, com garantia de desempenho para conclusão em dois anos, mas a capacidade de 1 MW descrita pela APDL não deve ser confundida com o limite de 20 MW da concessão.
A instalação ainda não está concluída. O cronograma permanece condicionado ao término dos reparos no quebra-mar, e há discussões em andamento sobre a extensão do prazo de conexão à rede. Essa dependência diferencia o projeto de Leixões de uma infraestrutura elétrica já em operação, porque a geração depende da recuperação física do molhe e da autorização para conexão. A experiência portuguesa coloca a infraestrutura marítima no centro da transição: a fonte renovável pode ser instalada no porto, mas sua entrega operacional depende da integridade da obra civil e da rede que receberá a eletricidade.
Eletrificação e energia das ondas cumprem funções complementares, mas não equivalentes. A primeira organiza a substituição de geradores e motores que consomem combustível no cais; a segunda acrescenta uma fonte renovável vinculada ao quebra-mar. Na Europa, a baixa proporção de conexões OPS operacionais ou contratadas mostra que a redução de emissões depende de obras, equipamentos, gestão de carga e regras de conexão. Em Leixões, o próximo passo é concluir a recuperação da Barra do Douro antes de instalar os flutuadores e conversores, enquanto o prazo de ligação à rede ainda é discutido. A transição portuária avança quando geração e consumo são planejados como partes da mesma operação, com prazos e capacidade técnica claramente definidos.