Em 25 de agosto de 2026, a DP World inaugurou no Muelle Sur do Porto de Callao, no Peru, o primeiro terminal portuário da América Latina a oferecer cold ironing, também chamado shore power. A instalação permite que navios conectados à rede elétrica do terminal desliguem seus motores auxiliares e utilizem 100% de energia renovável certificada. O marco, registrado no comunicado da DP World, coloca a conexão elétrica em terra no centro da modernização ambiental dos terminais de contêineres da região.
Energia em vez de motores
O cold ironing altera o fornecimento de energia durante a permanência do navio no cais. No funcionamento descrito para Callao, a embarcação atracada recebe eletricidade da rede do terminal e desliga seus motores auxiliares, enquanto a energia fornecida tem certificação de origem 100% renovável. A tecnologia não muda a movimentação da carga por si só, mas interfere diretamente na forma como o navio mantém seus sistemas ativos durante a atracação, período em que permanece conectado à infraestrutura portuária.
A primeira operação foi realizada pelo CMA CGM PLATINUM, que se tornou o navio inaugural do sistema no terminal. A compatibilidade da frota também amplia o alcance imediato da instalação: aproximadamente 80% dos navios que frequentam o Pier 3 já podem utilizar a conexão elétrica. Esse índice não significa que toda a frota esteja preparada, mas indica que a tecnologia já pode ser aplicada a uma parcela expressiva das escalas atendidas pela unidade.
Além da redução de carbono, o sistema busca diminuir a poluição atmosférica local enquanto os navios permanecem atracados. A consequência esperada alcança as comunidades vizinhas ao porto, que ficam próximas de uma área onde embarcações operam por períodos de permanência no cais. A adoção de energia de terra transforma, assim, uma etapa operacional específica, a permanência do navio no berço, em uma frente de redução de emissões associadas à atividade marítima.
Uma instalação dimensionada para grandes navios
A infraestrutura de Callao pode fornecer até 7,5 MVA, capacidade suficiente para atender aos maiores navios de contêineres que operam no terminal. Esse dimensionamento conecta a eletrificação ambiental à escala física do comércio marítimo, no qual os equipamentos de bordo precisam receber energia compatível com a operação portuária. A conexão deixa de ser apenas uma solução experimental quando consegue atender embarcações de grande porte e se integra ao fluxo regular do terminal.
Para suportar essa demanda, a DP World instalou uma nova subestação elétrica com transformador dedicado. O consumo do sistema equivale ao de todo o restante do terminal, segundo as informações do projeto. Essa relação ajuda a dimensionar a exigência técnica do cold ironing: a instalação não depende apenas de um ponto de conexão no cais, mas de uma estrutura elétrica própria para entregar potência suficiente sem comprometer o atendimento das demais operações.
A implantação faz parte de um programa de descarbonização de US$ 105 milhões e está associada ao projeto de expansão Bicentennial Pier, estimado em US$ 400 milhões. O projeto também integra um investimento total de aproximadamente US$ 1 bilhão da DP World na infraestrutura portuária do Peru. Os valores mostram que a conexão elétrica foi incorporada a um conjunto mais amplo de obras e metas operacionais, em vez de aparecer como uma aquisição isolada de equipamento.
Emissões medidas no cais
A estimativa do terminal aponta redução anual de aproximadamente 6.300 toneladas de CO2e com a operação do sistema. Enquanto os navios estiverem conectados à rede elétrica, a previsão também indica queda superior a 90% nas emissões de óxidos de nitrogênio, óxidos de enxofre e material particulado. A mensuração separa o resultado climático, expresso em dióxido de carbono equivalente, da redução de poluentes atmosféricos emitidos durante a permanência das embarcações no berço.
O projeto foi associado ao tratamento das emissões de Escopo 3 ligadas às linhas de navegação. Marco Hernández, gerente-geral da DP World Callao, informou que o terminal busca reduzir em 90% suas emissões de CO2 até 2030. Na formulação consolidada do projeto, a meta está relacionada à redução de 90% das emissões de Escopos 1 e 2 da unidade no mesmo prazo, enquanto o shore power alcança as emissões vinculadas à operação dos navios.
A eletrificação não ficará restrita à conexão dos navios. O plano inclui a eletrificação progressiva de veículos de transferência e guindastes portuários, em alinhamento com a meta estabelecida para 2030. Callao passa a combinar uma fonte renovável para as embarcações atracadas com a transformação gradual de equipamentos do próprio terminal, ampliando a descarbonização para diferentes etapas da operação sem dissociá-la da infraestrutura elétrica instalada.
O avanço de Callao reúne uma conexão capaz de atender grandes navios, uma subestação dedicada, compatibilidade com cerca de 80% das embarcações do Pier 3 e metas quantitativas de redução de emissões. O próximo passo já previsto é a continuidade da eletrificação dos equipamentos portuários até 2030, enquanto o cold ironing será utilizado nas escalas compatíveis. O resultado coloca o Muelle Sur como referência regional de aplicação concreta da energia de terra, com efeitos medidos no consumo elétrico do terminal e nas emissões geradas durante a atracação.