Brasil e Singapura assinaram, em 28 de agosto de 2026, um Memorando de Entendimento para estabelecer um Corredor Marítimo Verde e Digital, enquanto o Complexo do Pecém, no Ceará, prepara para setembro de 2026 a operação de um sistema de "shore power" para embarcações atracadas. O acordo foi firmado por Jeffrey Siow, ministro dos Transportes de Singapura, e Tomé Franca, ministro de Portos e Aeroportos do Brasil. No Pecém, a instalação localizada no Terminal de Múltiplas Utilidades recebeu investimento de R$ 13,2 milhões. As duas frentes expõem a mesma transição em escalas diferentes: uma articula países e cadeias de suprimento; a outra leva eletricidade até o berço.

O acordo organiza a transição marítima

Na frente internacional, o memorando concentra a cooperação entre os dois países em descarbonização marítima e digitalização. O documento prevê o desenvolvimento de cadeias de suprimento para combustíveis marítimos de emissão zero ou próxima de zero, eixo que conecta a produção e a disponibilidade de energia às necessidades das operações navais. A formulação amplia o debate para além da troca de equipamentos em um terminal específico, pois considera a estrutura necessária para abastecer rotas marítimas com alternativas aos combustíveis convencionais.

O acordo também inclui a troca de informações digitais e o avanço de tecnologias marítimas emergentes. Na prática, essa frente trata da circulação de dados entre os participantes da rota e da cooperação para desenvolver soluções aplicáveis ao transporte marítimo. O memorando, portanto, combina uma agenda energética com uma agenda informacional, duas dimensões que aparecem no próprio desenho do corredor firmado por Brasil e Singapura.

A parceria integra uma rede internacional de corredores sustentáveis mantida por Singapura. O novo corredor com o Brasil é o décimo firmado pela cidade-Estado e se soma a acordos que incluem países como China e Estados Unidos. A rede tem como objetivo ampliar a interconectividade sustentável das rotas marítimas, enquanto o entendimento bilateral abre uma frente específica para a cooperação entre os dois países e prepara o terreno para iniciativas voltadas a combustíveis e dados.

Pecém leva a eletricidade para o berço

Na escala operacional, o Pecém prepara a ativação do shore power no Terminal de Múltiplas Utilidades. A tecnologia permite que navios conectados à rede elétrica em terra desliguem seus motores auxiliares a diesel durante a permanência no berço. O projeto recebeu R$ 13,2 milhões e tem estimativa de reduzir em 796 toneladas as emissões anuais de dióxido de carbono, transformando uma meta ambiental em uma instalação diretamente associada à atracação dos navios.

Do ponto de vista técnico, o sistema terá capacidade de 7,2 MW e atenderá navios porta-contêineres nos berços 9 e 10. A energia fornecida será proveniente de fontes renováveis, segundo as informações técnicas divulgadas sobre a instalação. A capacidade definida e a delimitação dos berços estabelecem os parâmetros de uso do equipamento, enquanto o fornecimento em terra substitui o funcionamento dos motores auxiliares durante a operação portuária.

Além da conexão para navios, o projeto inclui infraestrutura elétrica para guindastes MHC. O modelo comercial definido pelo CIPP prevê a cobrança de tarifas por conexão e por consumo de energia, seguindo padrões internacionais. Essa combinação reúne a adaptação física do terminal e uma regra de utilização do serviço, elementos que determinam como a eletrificação será incorporada à rotina dos operadores e das embarcações atendidas.

Cooperação e infraestrutura cumprem papéis diferentes

A diferença entre as duas iniciativas está no nível em que cada uma atua. O memorando Brasil-Singapura funciona como instrumento de cooperação institucional, com objetivos relacionados a combustíveis marítimos, informações digitais e tecnologias emergentes. O Pecém, por sua vez, instala um sistema de fornecimento elétrico em terra, com potência definida, berços determinados e previsão de cobrança pelo serviço. São frentes complementares na transição, mas o material disponível não informa que o terminal cearense faça parte do corredor bilateral.

O uso de energia renovável no Pecém será lastreado por certificados I-REC vinculados a fontes eólicas e solares contratadas junto à Casa dos Ventos. A certificação associa a eletricidade utilizada no sistema à origem renovável informada para o projeto. Já o corredor marítimo verde e digital trabalha em escala de cooperação e de organização de cadeias de suprimento, mostrando que a descarbonização depende tanto da procedência da energia quanto da capacidade de disponibilizá-la no ponto de atendimento ao navio.

Essa separação ajuda a interpretar os resultados esperados. O acordo entre os governos define campos de trabalho para a descarbonização e a digitalização, enquanto a instalação do Pecém oferece uma aplicação concreta de eletricidade em terra para embarcações atracadas. A primeira frente precisa estruturar cooperação e fluxos de informação; a segunda precisa operar uma conexão de 7,2 MW dentro de dois berços. A transição marítima avança quando essas duas escalas deixam de ser tratadas como agendas isoladas.

O próximo passo será medir a operação

A próxima data objetiva está no Pecém: o sistema deverá começar a oferecer energia em terra a partir de setembro de 2026. A entrada em operação permitirá observar a utilização da conexão nos berços 9 e 10, o consumo de energia e a aplicação das tarifas previstas pelo CIPP. Para a agenda bilateral, o memorando assinado em 28 de agosto estabelece a base de cooperação para desenvolver cadeias de combustíveis marítimos de emissão zero ou próxima de zero e ampliar a troca de informações digitais.

O Brasil passa a apresentar, no mesmo período, uma decisão de cooperação internacional e uma entrega de infraestrutura portuária. O corredor com Singapura organiza objetivos para as rotas marítimas, enquanto o Pecém coloca a eletrificação diante de uma operação mensurável, com investimento, potência e redução anual estimada de emissões. Mesmo em meio às limitações históricas do setor, a combinação de planejamento externo e implantação local indica que o país está convertendo compromissos de descarbonização em soluções portuárias concretas e ampliando sua capacidade tecnológica.