Os portos de Lisboa e Setúbal iniciaram, em 2026, um ciclo de modernização digital com 750 mil euros destinados a um datacenter integrado e iniciativas de inteligência artificial, incluindo a capacitação de trabalhadores com o Copilot. No mesmo período, a China aprovou um plano quinquenal, válido de 2026 a 2030, para modernizar 43 portos e 57 instalações com recursos inteligentes. As duas frentes respondem à necessidade de tornar operações portuárias e logísticas mais eficientes, em um mercado global de automação intralogística que pode passar de US$ 31 bilhões para US$ 64 bilhões até 2032.
Lisboa começa pela infraestrutura digital
Em Lisboa e Setúbal, o datacenter integrado forma a base física do investimento anunciado pelas administrações portuárias. O pacote de 750 mil euros financia essa estrutura e iniciativas de inteligência artificial voltadas à modernização digital. A frente portuguesa também inclui a capacitação de trabalhadores com o Copilot, ferramenta usada como parte do processo de adaptação das equipes às novas rotinas tecnológicas. A proposta combina infraestrutura e qualificação, em vez de limitar a digitalização à compra de equipamentos.
Esse primeiro núcleo digital está ligado a uma agenda de expansão mais ampla do Porto Lisboa-Setúbal. A administração anunciou investimentos superiores a 1,2 mil milhões de euros para a próxima década, com ações de modernização de terminais e reforço das acessibilidades ferroviárias. A meta é elevar a movimentação de 18,2 milhões para 25 milhões de toneladas até 2035, enquanto o datacenter e a inteligência artificial integram a frente tecnológica do programa. Mais detalhes estão disponíveis na cobertura sobre os investimentos estruturantes do Porto Lisboa-Setúbal.
A escolha de capacitar os trabalhadores amplia o alcance do projeto para além das áreas diretamente ligadas à movimentação de cargas. Entre as prioridades estão o uso do Copilot e a automação de processos internos, com o objetivo de reforçar a resiliência e a eficiência administrativa dos terminais ibéricos. Essa abordagem coloca a gestão de documentos, fluxos administrativos e tarefas repetitivas no centro da transformação. A experiência portuguesa, portanto, começa pela organização interna e prepara a comparação com a estratégia chinesa, que parte de uma escala nacional.
China transforma escala em política nacional
Na China, a digitalização portuária foi organizada como política nacional por meio do primeiro plano quinquenal dedicado à modernização dos portos. O projeto Smart Port Construction designou 43 portos-chave e abrange 57 instalações no período de 2026 a 2030. A inteligência artificial e os equipamentos inteligentes aparecem como instrumentos para reorganizar operações alfandegárias e o manuseio de cargas. Os detalhes foram apresentados em Pequim, em julho de 2026, por Zhang Baofeng, da GAC, indicando que a iniciativa já possui uma estrutura formal de execução.
O plano chinês estabelece uma meta mensurável para a inspeção: equipar mais de 90% dos portos com tecnologia inteligente até o fim da década. A aplicação prevista alcança a alfândega, com a busca por procedimentos mais rápidos, e também o manuseio de cargas. O programa inclui ainda a integração multimodal e ações de descarbonização voltadas às cadeias de suprimentos globais. A combinação de fiscalização, operação física e sustentabilidade amplia o alcance da iniciativa para além da automação de uma etapa isolada.
A diferença entre as duas abordagens está na escala e na forma de coordenação. Lisboa e Setúbal começaram com uma estrutura integrada de dados, inteligência artificial e treinamento de equipes; a China definiu metas nacionais para dezenas de portos e instalações. Na Europa, o mercado de automação intralogística tem previsão de crescimento anual de 10,79% entre 2026 e 2031, impulsionado também por normas de interoperabilidade. Entre elas está a VDA 5050, que facilita a integração de soluções de diferentes fornecedores e reduz a dependência de sistemas isolados.
Mercado reduz a barreira para a automação
As duas iniciativas ocorrem durante uma expansão acelerada da automação logística. Dados apresentados pela Bertolini Sistemas de Armazenagem, com base em estudo da LogisticsIQ, indicam que o mercado global de automação intralogística deve crescer de US$ 31 bilhões em 2026 para US$ 64 bilhões em 2032, com taxa anual de 12%. A busca por produtividade, redução de custos e menor dependência de mão de obra sustenta esse movimento. Na América Latina, a previsão de investimentos entre 2026 e 2032 fica entre US$ 8 bilhões e US$ 12 bilhões, faixa que amplia a atenção sobre soluções aplicáveis a terminais e centros logísticos.
Dentro desse mercado, os robôs móveis concentram parte expressiva do crescimento. Os AGVs, ou veículos guiados automatizados, e os AMRs, robôs móveis autônomos, são utilizados para a movimentação de materiais e avançam por oferecer flexibilidade e possibilidade de expansão gradual. A estimativa indica que esses equipamentos podem responder por 25% dos investimentos globais em automação em 2032. Embora os dados estejam associados principalmente aos centros de distribuição, a lógica de movimentação automatizada ajuda a explicar por que a tecnologia ganhou espaço nas discussões sobre eficiência operacional.
A expansão também altera a forma de financiar a adoção tecnológica. O modelo Robotics-as-a-Service, conhecido como RaaS, permite contratar automação por assinatura ou financiamento, em vez de concentrar todo o desembolso no início do projeto. O relatório da LogisticsIQ estima uma oportunidade de US$ 15 bilhões nos serviços de manutenção e soluções digitais até 2032. A mesma análise aponta que o RaaS pode reduzir entre 60% e 80% o investimento inicial de capital, o que facilita a entrada de operadores que não conseguem imobilizar grandes volumes de recursos.
As projeções de longo prazo mostram que a transformação não termina em 2032. A Persistence Market Research estima que o mercado global de automação intralogística poderá alcançar US$ 137,1 bilhões até 2033. Para 2026, os sistemas automatizados de armazenamento e recuperação, conhecidos como AS/RS, e os sistemas de gerenciamento de armazém, ou WMS, aparecem entre as tecnologias dominantes. A Ásia-Pacífico detém 36,9% do mercado global, enquanto a Europa concentra esforços na interoperabilidade e na robótica móvel com inteligência artificial. Essa divisão ajuda a situar Lisboa, Setúbal e os portos chineses em uma transformação que combina escala, padronização e novos modelos de investimento.
Lisboa e Setúbal iniciaram a modernização pela combinação de datacenter, inteligência artificial e capacitação, enquanto a China fixou para 2030 a meta de ampliar a inspeção inteligente em mais de 90% de sua rede portuária prioritária. O próximo passo português está ligado à execução do programa de investimentos para a próxima década e à meta de movimentar 25 milhões de toneladas até 2035. Para operadores, autoridades aduaneiras e trabalhadores, a questão passa a ser transformar essas estruturas em processos integrados, mensuráveis e capazes de acompanhar o crescimento da automação logística.