Os investimentos globais em automação intralogística devem praticamente dobrar entre 2026 e 2032, enquanto empresas brasileiras já aplicam ferramentas digitais em portos, terminais e redes multimodais. A projeção da LogisticsIQ aponta US$ 64 bilhões em aportes até 2032, impulsionados pela busca por produtividade, redução de custos e menor dependência de mão de obra. No Brasil, o movimento aparece em operações da Ferroport, da Wilson Sons e da Ultracargo, conectando automação de processos, monitoramento operacional e uso mais eficiente dos ativos logísticos.
A conta global da automação ganha escala
Estudo da consultoria LogisticsIQ aponta que os investimentos globais em tecnologias de automação intralogística devem saltar de US$ 31 bilhões em 2026 para US$ 64 bilhões em 2032, representando um crescimento médio anual de 12%. Para a América Latina, o aporte estimado no período varia entre US$ 8 bilhões e US$ 12 bilhões. O objetivo principal da adoção dessas tecnologias é o aumento da produtividade, redução de custos operacionais e diminuição da dependência de mão de obra em centros de distribuição. A dimensão regional coloca os terminais brasileiros diante de uma disputa que passa pela capacidade de transformar investimento em desempenho mensurável.
A taxa composta de crescimento anual (CAGR) projetada pela LogisticsIQ para o período 2026-2032 é de 12,3%. A estimativa considera a pressão exercida pelo comércio eletrônico, pelos microcentros de atendimento e pelas entregas ultrarrápidas sobre armazéns e centros de distribuição. Esses fatores encurtam o tempo disponível para receber, separar e expedir cargas, o que aumenta o valor de processos com maior previsibilidade operacional. Para portos e terminais, a mesma lógica aproxima a movimentação física do planejamento digital, desde que os dados usados nas decisões tenham qualidade e estejam disponíveis no momento certo.
As projeções de outras consultorias mostram que o ritmo varia conforme o recorte adotado. Segundo a Global Market Insights, o mercado global de automação logística foi avaliado em US$ 35,9 bilhões em 2025, com projeção de atingir US$ 104,9 bilhões até 2035 (CAGR de 11,5%). A estimativa da empresa aponta ainda um CAGR de 10,8% para o Brasil no mesmo período. Já a Fortune Business Insights estima que o mercado crescerá de US$ 99,43 bilhões em 2026 para US$ 260,75 bilhões em 2034, com CAGR de 12,80%. A diferença entre os números decorre do escopo de cada levantamento, mas todos indicam expansão contínua da demanda por automação.
Na movimentação física de materiais, os veículos guiados automaticamente e os robôs móveis autônomos concentram parte expressiva da expectativa de crescimento. Executivos do setor apontam que os veículos guiados automaticamente (AGVs) e os robôs móveis autônomos (AMRs) são as tecnologias com maior ritmo de aceleração. Estima-se que esses robôs representem cerca de 25% dos investimentos globais em automação intralogística até 2032. Para o operador, o ganho não está apenas na substituição de uma tarefa manual, mas na possibilidade de organizar fluxos repetitivos com maior regularidade e conectar a execução ao sistema de gestão.
Os terminais brasileiros já testam ganhos concretos
Esse movimento global encontra aplicações específicas no país. No Porto do Açu, a plataforma Dockflow reduziu cerca de 80% do tempo das reuniões diárias da Ferroport e gerou economia superior a 500 horas por ano. A Ferroport transformou uma rotina de acompanhamento em uma atividade mais curta e orientada por informação operacional. O resultado mostra como uma solução digital pode produzir efeito antes mesmo da automação integral de equipamentos, ao reduzir o tempo gasto na coordenação e liberar horas para outras atividades de gestão.
A Wilson Sons utiliza câmeras e sensores no Porto de Rio Grande. O caso desloca a discussão de automação para a capacidade de observar a operação com dados contínuos, em vez de depender apenas de registros manuais ou de verificações pontuais. Em um terminal, essa mudança pode apoiar o acompanhamento das condições operacionais e a identificação de ocorrências com mais rapidez, embora o material disponível não detalhe quais decisões são automatizadas. A aplicação em Rio Grande reforça que a digitalização também começa pela qualidade da coleta de informações.
Drones já integram operações no Porto de Salvador e na baía de Guanabara. A presença desses equipamentos amplia a área que pode ser acompanhada sem exigir deslocamento constante de equipes, criando uma camada adicional de visibilidade para atividades portuárias. O dado disponível não especifica as missões executadas nem os indicadores obtidos, mas confirma a incorporação dos drones à rotina operacional em dois espaços distintos. Essa experiência complementa o uso de câmeras e sensores, pois acrescenta mobilidade à captura de informações e aproxima a observação do local onde a atividade acontece.
A Ultracargo, por sua vez, investiu mais de R$ 1,2 bilhão em sua rede operacional e multimodal, mostrando que a competitividade também passa pelo melhor uso dos ativos existentes. O valor indica uma abordagem que não se limita à compra isolada de uma ferramenta, mas considera a conexão entre diferentes pontos da cadeia. Para a logística portuária, essa integração amplia a discussão sobre automação: o desempenho depende tanto da tecnologia empregada em um terminal quanto da capacidade de articular armazenagem, transporte e movimentação em uma mesma rede.
O próximo ciclo será medido pela integração
Os casos brasileiros apresentam três portas de entrada para a automação: a redução do tempo de coordenação na Ferroport, a coleta de dados no terminal da Wilson Sons e o monitoramento móvel por drones. A experiência da Ultracargo acrescenta a dimensão dos investimentos em uma rede multimodal. Em conjunto, essas iniciativas mostram que a modernização logística não ocorre apenas quando um equipamento passa a operar sozinho. Ela também aparece quando uma empresa reduz reuniões, amplia a visibilidade da operação ou organiza melhor os ativos que já possui.
Até 2032, a LogisticsIQ estima que AGVs e AMRs respondam por cerca de 25% dos investimentos globais em automação intralogística, enquanto o modelo de Robótica como Serviço pode reduzir entre 60% e 80% o investimento inicial. Para o Brasil, a projeção de crescimento anual de 10,8% apresentada pela Global Market Insights indica espaço para novas aplicações, desde que os projetos estejam ligados a ganhos operacionais verificáveis. A expansão dos terminais brasileiros passa, portanto, pela combinação entre escala internacional, disciplina de dados e capacidade de transformar tecnologia em produtividade, um avanço que mostra a evolução do país mesmo em meio às limitações ainda existentes.