Em agosto de 2026, o Porto de São Sebastião, no Brasil, e a Autoridade Marítima e Portuária de Singapura (MPA) avançaram em frentes próprias de digitalização portuária. O porto brasileiro colocou em operação um Port Community System para integrar agentes da cadeia logística, enquanto a autoridade singapuriana lançou o IPOC, plataforma baseada em dados em tempo real para coordenar operações. As medidas também abrangem o compartilhamento anônimo de lições de segurança e a validação de operações marítimas autônomas e remotas. A aproximação entre os dois casos interessa ao setor porque mostra como a integração de dados pode atacar processos manuais, melhorar o acompanhamento operacional e ampliar o controle sobre as atividades portuárias.
A informação passa a circular no porto
Em São Sebastião, o primeiro passo foi organizar a circulação das informações entre os participantes da operação. O sistema foi colocado em operação em 14 de agosto de 2026, e a plataforma concentra informações de empresas, órgãos públicos e operadores. O desenho permite acompanhar, em tempo real, documentos, cargas e acessos, aproximando a gestão portuária das atividades operacionais que dependem de dados atualizados. A implementação do PCS foi apresentada como uma forma de integrar agentes, e não apenas de converter documentos físicos em arquivos digitais.
Na fase inicial, o Port Community System já reunia 50 empresas cadastradas e havia processado mais de mil transações. Esses números indicam que a plataforma entrou em uso com participação de diferentes organizações da cadeia logística, embora a fonte não apresente uma avaliação de produtividade posterior à implantação. O objetivo declarado é digitalizar processos manuais, diminuir o uso de documentos físicos e otimizar a logística. A redução da burocracia e o aumento da previsibilidade operacional dependem, portanto, da continuidade desse fluxo compartilhado de informações entre os usuários.
Em Singapura, a MPA aplicou uma lógica voltada à coordenação direta das operações. O sistema Integrated Port Operations Command, Control and Communications, conhecido como IPOC, foi desenvolvido com a Agência de Ciência e Tecnologia de Defesa e a ST Engineering. A plataforma utiliza dados em tempo real para a coordenação portuária, concentrando a resposta operacional em informações atualizadas. A iniciativa da MPA amplia a discussão sobre digitalização porque desloca o foco da simples troca de documentos para o comando e o controle das atividades do porto.
Do controle operacional à segurança
A diferença de desenho entre as duas soluções ajuda a entender a convergência tecnológica sem confundir suas funções. O PCS de São Sebastião organiza informações de empresas, órgãos públicos, operadores, cargas, documentos e acessos. O IPOC, por sua vez, foi estruturado para a coordenação portuária com dados em tempo real. Uma plataforma atua sobre a integração dos participantes e dos registros; a outra se concentra no comando, no controle e nas comunicações operacionais. Juntas, essas funções mostram que a digitalização portuária pode avançar por camadas distintas, conforme a necessidade de cada autoridade ou instalação.
Essa coordenação foi acompanhada, em Singapura, por uma frente específica de aprendizado com ocorrências de segurança. O Singapore Near Miss Reporting System foi criado em parceria com o Conselho Nacional de Segurança Marítima e a Associação de Armadores de Singapura. O sistema permite o compartilhamento anônimo de lições de segurança, preservando a possibilidade de reunir informações sobre situações reportadas sem expor a identidade de quem as comunicou. A proposta acrescenta uma dimensão de aprendizagem ao uso de dados, pois a informação não serve apenas para acompanhar a operação em andamento, mas também para registrar lições que podem orientar medidas posteriores.
À frente de autonomia, a MPA firmou um memorando de entendimento com a Ocean Infinity para testar e validar operações marítimas autônomas e remotas nas águas do porto de Singapura. O acordo ainda está descrito como etapa de teste e validação, sem indicação de que essas operações tenham sido incorporadas de forma permanente à rotina portuária. Essa distinção é necessária para avaliar o avanço tecnológico com precisão: o anúncio trata da experimentação controlada de novas formas de operação, enquanto o IPOC já é apresentado como um sistema de coordenação baseado em dados em tempo real. A segurança e a autonomia, nesse caso, aparecem como frentes complementares da transformação digital.
A integração também conecta sistemas
A experiência brasileira ganha outra dimensão quando observada junto ao IntegraPSP, lançado pelo Serpro para estabelecer comunicação direta entre sistemas da cadeia logística e a plataforma Porto Sem Papel. O recurso não substitui a função local do PCS de São Sebastião. Ele atua na comunicação entre sistemas privados e o sistema governamental, criando uma camada de troca automatizada de dados operacionais. A combinação dos dois movimentos mostra que a digitalização pode ocorrer tanto dentro de uma comunidade portuária quanto na conexão dessa comunidade com os serviços digitais mantidos pelo governo.
O IntegraPSP está disponível para contratação desde maio de 2026 por empresas habilitadas no Porto Sem Papel. O conjunto de APIs foi concebido para eliminar a redigitação de informações e permitir a troca automatizada e segura de dados operacionais em tempo real. Para as empresas, o efeito esperado é reduzir uma etapa manual que pode repetir dados já registrados em outro sistema. Para a administração pública, a comunicação direta diminui a dependência de inserções sucessivas e aproxima os registros governamentais das informações produzidas pelos operadores privados.
Essa camada de integração ajuda a interpretar os resultados esperados em São Sebastião com maior precisão. A plataforma local concentra documentos, cargas e acessos, enquanto o IntegraPSP permite a comunicação entre sistemas privados e o Porto Sem Papel. Não se trata de uma única solução aplicada de maneira uniforme, mas de iniciativas que atacam pontos diferentes do fluxo informacional. Em ambos os casos, a redução de papel e de redigitação está associada à busca por maior previsibilidade logística, desde que as organizações mantenham os dados atualizados e utilizem as conexões previstas pelas plataformas.
Os casos de São Sebastião e Singapura mostram que a digitalização portuária não depende de um único modelo tecnológico. No porto brasileiro, o próximo passo concreto é consolidar o uso de uma plataforma que já reúne 50 empresas e mais de mil transações; em Singapura, a MPA avançou com um sistema de coordenação em tempo real, um mecanismo de compartilhamento de lições de segurança e testes de operações autônomas e remotas. A comparação coloca a integração de dados, a redução de tarefas manuais e a segurança no mesmo eixo de análise. Para o setor, o resultado mais concreto é a passagem de processos isolados para sistemas capazes de compartilhar informações conforme a função operacional de cada porto.