O setor logístico brasileiro está usando IA e automação para extrair produtividade de ativos já instalados, enquanto Ferroport e Wilson Sons aplicam soluções em terminais portuários em 2026. A movimentação ocorre no Brasil durante uma onda de investimentos estimada em R$ 300 bilhões para infraestrutura, segundo a Abdib, e alcança o terminal da Ferroport no Porto do Açu, o Porto de Rio Grande e operações com drones no Porto de Salvador e na baía de Guanabara. A finalidade é reduzir tempo de coordenação, gargalos e custos com uso de dados, sem depender apenas da construção de nova capacidade. A aplicação prática dessas tecnologias mostra que a disputa por eficiência já migrou para a operação cotidiana.
Eficiência começa na sala de controle
A Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base, a Abdib, estima R$ 300 bilhões em investimentos para 2026. Esse volume amplia a capacidade de modernização de rodovias, portos e ferrovias, mas também aumenta a cobrança por resultados operacionais mensuráveis. A tecnologia entra nessa equação como instrumento para reduzir gargalos e custos sem exigir, em todos os casos, uma nova obra ou a expansão física imediata de um terminal. O movimento desloca a atenção do tamanho dos ativos para a qualidade das decisões tomadas sobre eles.
É nesse ponto que a Ferroport aplica a plataforma Dockflow no terminal do Porto do Açu. O sistema usa inteligência artificial para apoiar as reuniões diárias de alinhamento, atividade que concentra informações sobre o funcionamento da operação e a coordenação entre as equipes. A ferramenta reduziu cerca de 80% do tempo desses encontros, transformando uma rotina de acompanhamento em um processo mais rápido e orientado por dados. A experiência mostra como uma solução digital pode produzir ganhos sem alterar a infraestrutura física do terminal.
A redução do tempo das reuniões gerou uma economia superior a 500 horas por ano para a Ferroport. O resultado não está apenas na duração menor dos encontros, mas na liberação de tempo das equipes para atividades de planejamento e execução. Em operações portuárias, nas quais decisões precisam acompanhar a chegada de cargas, equipamentos e veículos, a velocidade de alinhamento interfere na resposta aos desvios do dia. A Dockflow, portanto, conecta inteligência artificial a uma tarefa administrativa recorrente e leva a discussão sobre produtividade para dentro do processo operacional.
Sensores ampliam o campo de visão
Enquanto a Ferroport concentra a aplicação da IA na coordenação das equipes, a Wilson Sons utiliza câmeras e sensores no Porto de Rio Grande. Esses dispositivos ampliam a coleta de informações sobre a operação e permitem acompanhar o ambiente portuário com maior regularidade. A mudança desloca parte do controle de inspeções isoladas para uma observação contínua dos ativos e das atividades. Para os operadores, o valor está em transformar ocorrências visíveis no terminal em informação disponível para a tomada de decisão.
Essa lógica também aparece no uso de drones incorporados às operações do Porto de Salvador e da baía de Guanabara. As aeronaves ampliam o alcance da observação em áreas portuárias e offshore, levando a coleta de informações para locais em que o acompanhamento presencial pode consumir mais tempo. A adoção não substitui os procedimentos operacionais, mas acrescenta uma camada de monitoramento ao trabalho das equipes. O ganho esperado está na capacidade de obter dados de áreas extensas e apoiar respostas mais rápidas às necessidades da operação.
O ponto comum entre câmeras, sensores e drones é a tentativa de tornar a operação mais observável antes de ampliar sua capacidade física. A empresa passa a trabalhar com mais informações sobre o que ocorre no terminal e pode organizar melhor a resposta aos gargalos identificados. Essa abordagem acompanha a expansão dos investimentos em infraestrutura, porque cada ativo novo precisa operar com produtividade suficiente para justificar o capital empregado. A modernização deixa de ser apenas compra de equipamento e passa a incluir a forma como o operador enxerga, registra e coordena o trabalho.
Ultracargo prioriza rede e integração
A Ultracargo direcionou mais de R$ 1,2 bilhão para sua rede operacional e multimodal. O investimento amplia a discussão para além de um terminal específico e mostra a necessidade de conectar diferentes pontos da movimentação logística. Em uma rede multimodal, o desempenho depende da continuidade entre etapas, e não apenas da produtividade isolada de um pátio ou armazém. A eficiência passa a ser medida pela capacidade de manter o fluxo coordenado entre os ativos disponíveis.
O caso da Ultracargo reforça a mesma orientação observada no Porto do Açu e em Rio Grande: melhorar o uso da estrutura existente pode ser tão necessário quanto construir capacidade adicional. A inteligência artificial aplicada à coordenação, os dispositivos de monitoramento e a integração multimodal atacam momentos diferentes do mesmo problema, que é reduzir esperas e decisões desconectadas. A Abdib também aponta que as empresas vêm empregando dados e IA para reduzir gargalos, custos e impactos ambientais. O investimento deixa de olhar somente para a expansão física e passa a considerar o rendimento de cada etapa da cadeia.
Esse avanço, contudo, não elimina as limitações da infraestrutura brasileira. Dados do setor indicam que 44% das rodovias apresentam problemas, enquanto a adoção tecnológica avança nos terminais e nas operações logísticas. A modernização precisa, por isso, caminhar junto com a qualificação profissional e com a melhoria das condições físicas de transporte. A digitalização pode organizar melhor uma operação, mas não corrige sozinha uma estrada deficiente nem substitui a preparação das pessoas que trabalham com os sistemas.
Os casos da Ferroport, da Wilson Sons e da Ultracargo mostram uma logística brasileira que busca competitividade pela produtividade dos ativos, pela qualidade dos dados e pela integração entre modais. A estimativa de que 94% das cadeias de suprimentos estarão pelo menos parcialmente digitalizadas até o fim de 2026 indica que essa transição tende a alcançar uma parcela ampla do mercado. O próximo passo será converter essa digitalização em decisões consistentes, com profissionais preparados e infraestrutura física capaz de acompanhar o ritmo das ferramentas. Mesmo com restrições históricas, o setor amplia sua capacidade de operar melhor e sustenta uma trajetória de crescimento baseada menos em improviso e mais em informação.