No dia 30 de julho de 2026, dois movimentos de peso sacudiram a indústria portuária global em continentes distintos. De um lado, a Kalmar e a APM Terminals firmaram uma parceria estratégica para co-desenvolver a plataforma de automação Kalmar One, incluindo um modelo inédito de Automation as a Service. Do outro, o governo sul-coreano inaugurou a construção do Gwangyang Port Automation Testbed, um investimento de KRW 772,4 bilhões (aproximadamente US$ 540 milhões) em um terminal totalmente automatizado. A coincidência temporal não é acidental: ela sinaliza que a automação portuária deixou de ser um experimento isolado para se tornar o novo patamar de competitividade do setor.

A parceria que redefiniu o modelo de automação

A aliança entre Kalmar e APM Terminals representa uma ruptura no modelo tradicional de fornecimento de tecnologia para terminais. A APM Terminals obteve acesso ao código-fonte da plataforma Kalmar One e passou a colaborar diretamente com a equipe de engenharia da Kalmar no desenvolvimento e na implantação do sistema em terminais existentes e futuros. O acordo prevê também o alinhamento dos roteiros de produto, incorporando a experiência operacional da operadora à evolução tecnológica da plataforma. Segundo Hans Jacobs, diretor de Tecnologia Operacional e Analytics da APM Terminals, a parceria reflete o compromisso de co-desenvolver soluções integradas mais seguras, transparentes e alinhadas às necessidades operacionais reais.

O modelo Automation as a Service constitui o núcleo inovador do acordo. Em vez de adquirir licenças e implantar sistemas de forma isolada, a operadora passa a contar com um modelo contínuo de desenvolvimento conjunto, no qual a tecnologia evolui com base no feedback operacional de campo. A primeira implantação em larga escala ocorrerá no Pier 400, em Los Angeles, o maior terminal de contêineres do Hemisfério Ocidental. Juuso Kanner, vice-presidente de Automação da Kalmar, classificou o acordo como um marco sem precedentes na indústria, cujos benefícios se estendem a todos os clientes da plataforma.

A escala da operação da APM Terminals confere dimensão prática ao que está em jogo. Em 2025, a empresa registrou 27.000 atracações de navios e 25,8 milhões de movimentos em suas 35 instalações globais, empregando cerca de 22.000 profissionais em mais de 60 localidades. Automatizar essa rede com tecnologia co-desenvolvida, e não apenas comprada, altera a dinâmica de poder entre operadores e fornecedores, aproximando o setor portuário do modelo de cocriação que já domina outras indústrias de infraestrutura.

Coreia do Sul aposta alto em IA física para portos

Enquanto a parceria Kalmar-APM reconfigura o modelo de fornecimento de tecnologia, a Coreia do Sul optou por uma rota diferente e igualmente ambiciosa: construir do zero um terminal automatizado como bancada de testes nacional. O Gwangyang Port Automation Testbed, localizado na Fase 3-2 do Porto de Gwangyang, contará com quatro berços e capacidade anual de 1,36 milhão de TEUs. Cerca de 150 participantes, incluindo o ministro dos Oceanos e Pescas, Hwang Jong-u, e o presidente da YGPA, Choi Gwan-ho, acompanharam a cerimônia de inauguração das obras.

O projeto integra a Estratégia Nacional de Portos com IA Física, anunciada pelo governo sul-coreano em 23 de julho de 2026, com o objetivo de transformar os portos do país em sistemas logísticos totalmente autônomos. Todos os equipamentos, sistemas de transferência e o sistema operacional do terminal serão desenvolvidos e produzidos no território nacional, uma decisão que visa consolidar a soberania tecnológica do país no segmento portuário. As metas oficiais incluem aumento de 30% na produtividade portuária, eliminação de acidentes de trabalho e conquista de 10% do mercado global de equipamentos portuários até 2035.

A primeira fase do programa mais amplo tem orçamento estimado em KRW 7,92 trilhões (aproximadamente US$ 5,36 bilhões) e prevê a aquisição de 198 guindastes portuários autônomos, sendo 36 STS e 162 de pátio, além de 171 AGVs e um sistema de operação baseado em inteligência artificial. As tecnologias validadas em Gwangyang serão implantadas na Fase 1 do Porto Novo de Jinhae, com inauguração prevista para 2032. O ministro Hwang Jong-u definiu o testbed como a base para a inovação portuária com IA física do país.

Brasil avança com soluções de médio porte e gestão digital

Os projetos bilionários da Ásia e as parcerias globais da Europa não obscurecem avanços concretos que também ocorrem em portos brasileiros. Em Porto Itapoá, a empresa catarinense Priime Tech, fundada em Brusque (SC) em 2006 e certificada ISO 9001, implementou sistemas de AGS (Automated Gate Systems) e OCR (Optical Character Recognition) nos portões de saída do terminal. A solução elimina a digitação manual de placas de veículos, números de contêineres e lacres, capturando todos os dados em uma única operação e validando-os em tempo real contra o TOS e as bases de acessos autorizados.

O impacto operacional é mensurável. Terminais com cerca de 300 acessos diários e tempo médio de espera de quatro minutos para resolução de divergências acumulam mais de 20 horas improdutivas por dia, tempo que a automação dos gates devolve à operação. Porto Itapoá já havia registrado crescimento de 18% no primeiro trimestre de 2023, alcançando 533.423 TEUs e produtividade de 172,26 movimentos por hora em maio daquele ano. A lógica de automação aplicada pela Priime Tech em Itapoá segue princípio semelhante ao adotado em larga escala no Porto de Tianjin, na China, onde a experiência de operadores veteranos foi convertida em algoritmos de IA para guiar robôs de transporte autônomo 24 horas por dia.

No Porto do Açu, maior complexo portuário-industrial privado de águas profundas da América Latina, a transformação digital tomou outra forma. A operação, sediada em São João da Barra (RJ) e gerida desde 2014 pela joint venture entre a Prumo Logística e o Porto de Antuérpia-Bruges Internacional, implementou uma plataforma digital personalizada desenvolvida em parceria com a startup AutoU. O sistema substituiu planilhas descentralizadas e controles fragmentados por e-mail por um ambiente integrado que reúne projetos, programas de inovação aberta, iniciativas de intraempreendedorismo e indicadores estratégicos.

A gestora de inovação do Porto do Açu, Juliane Carneiro, explicou que a plataforma centraliza informações, garante rastreabilidade e oferece uma visão integrada do portfólio, automatizando processos manuais e disponibilizando dashboards dinâmicos. O programa Cais de Ideias, voltado ao intraempreendedorismo, mobilizou mais de 240 profissionais ao longo de aproximadamente quatro meses, resultando em 30 propostas estruturadas elaboradas por 50 colaboradores com mais de 600 interações. Eduardo Julianelli, cofundador da AutoU, afirmou que a plataforma reflete a realidade operacional do Porto do Açu e integra programas de ideias com a gestão corporativa de projetos.

A convergência que define a nova fronteira competitiva

A simultaneidade dos anúncios de 30 de julho expõe uma convergência que vai além da coincidência. A automação portuária não se limita mais à substituição de equipamentos manuais por robôs: ela abrange desde o co-desenvolvimento de software entre operadores e fornecedores até a digitalização de processos administrativos e a governança da inovação. As três frentes, a parceria Kalmar-APM Terminals, o testbed sul-coreano e as iniciativas brasileiras em Porto Itapoá e Porto do Açu, representam manifestações distintas de uma mesma transformação estrutural no setor.

Para terminais que ainda tratam a automação como projeto de longo prazo ou investimento de ocasião, o recado é direto: o mercado global já definiu o novo patamar de exigência. A Coreia do Sul projeta conquistar 10% do mercado global de equipamentos portuários até 2035 com tecnologia inteiramente desenvolvida internamente, enquanto a APM Terminals co-desenvolve soluções com seu fornecedor para operar 25,8 milhões de movimentos anuais em 35 países. No Brasil, portos como Itapoá e Açu avançam com soluções de médio porte que eliminam horas improdutivas e engajam equipes na cultura da inovação. Ainda que o país enfrente gargalos históricos em infraestrutura e regulação, a adoção concreta de tecnologias de automação e digitalização em seus principais terminais mostra que a indústria portuária brasileira não pretende assistir de camarote a essa revolução operacional que redefine a competitividade global.