O Conselho de Administração da Autoridade Portuária de Valência (APV) aprovou no final de julho de 2026 a construção de uma nova subestação elétrica de 110 megawatts (MW), com orçamento de €15,6 milhões. O projeto, cofinanciado pela Comissão Europeia por meio do Connecting Europe Facility (CEF), não apenas expande a infraestrutura energética do porto, mas representa um passo decisivo para garantir a confiabilidade operacional e a viabilidade das metas de descarbonização até 2035.

A infraestrutura que sustenta a eletrificação

A nova subestação é projetada para dobrar a capacidade energética atual do complexo portuário de Valência. Este aumento é indispensável para alimentar as diversas frentes de eletrificação que a APV vem implementando, como a eletrificação de pátios de contêineres e a implantação de sistemas de fornecimento de energia em costa (OPS) para navios. Atualmente, quase 20% do consumo elétrico do porto já é gerado internamente por duas usinas fotovoltaicas, com capacidades de 1,4 MWp e 5,7 MWp.

A expansão da rede segue a conclusão da subestação ST1 de 132 kV, que entra em operação na segunda metade de 2026. Junto a ela, a APV já licitou a construção de um novo centro de distribuição de energia elétrica, com orçamento superior a €4,4 milhões, para conectar a ST1 aos terminais. Esta infraestrutura distribuidora será o coração pulsante do porto, garantindo que a energia gerada ou importada chegue eficientemente aos guindastes elétricos, aos pátios automatizados e aos pontos de recarga.

A estratégia de eletrificação se materializa também no dia a dia das operações. O terminal MSCTV, por exemplo, já realizou a transição da maior parte de sua frota de 18 RTGs (transtêineres pneumáticos) para a versão elétrica, eliminando o consumo de diesel nestes equipamentos. Essa conversão exige uma rede elétrica robusta e confiável, papel que a nova subestação vem assegurar.

OPS e a descarbonização do navio atracado

Um dos pilares do Plano Net Zero de Valenciaport é o fornecimento de Onshore Power Supply (OPS), permitindo que os navios desliguem seus geradores a óleo durante a atracação. A meta para o final de 2028 é eletrificar 8 dos 10 berços capazes de receber OPS, o que equivale a 80% da capacidade de atracação do porto.

A infraestrutura para isso já está em movimento: dois pontos de OPS para navios de contêineres e embarcações de passageiros estão sendo instalados e devem ficar operacionais em junho de 2026. Além disso, a APV já garantiu financiamento para 12 pontos adicionais, que devem estar ativos até dezembro de 2028. A nova subestação de 110 MW fornece a capacidade de reserva e a resiliência necessárias para suportar essa demanda massiva simultânea de energia, evitando sobrecargas e garantindo a operação contínua mesmo em horários de pico.

A complementar a geração solar, a APV lidera projetos de pesquisa em energia renovável marinha. O projeto RENMARINAS visa instalar painéis solares flutuantes (1,5 MWp) e um sistema de energia das ondas (270 kW) dentro da área portuária, com início previsto para 2026. Essas iniciativas diversificam a matriz e reduzem a dependência da rede nacional.

Governança ambiental e o caminho para 2035

A decisão do Conselho de Administração incluiu também a atualização da Política Ambiental e Energética da APV, alinhando-a ao Plano Estratégico 2035. A nova política formaliza o compromisso com um sistema de gestão que integra a sustentabilidade não apenas dentro da autoridade portuária, mas se estende a todas as empresas de domínio público, clientes, fornecedores e demais stakeholders que atuam no ecossistema portuário.

Entre as diretrizes aprovadas, destaca-se a obrigação de realizar análises periódicas de riscos ambientais associados às atividades do porto, promover a prevenção e minimização de impactos, e investir na capacitação contínua das equipes. A APV também reforçou o compromisso com o cálculo rigoroso da pegada de carbono e com a promoção da economia circular e da proteção da biodiversidade.

O objetivo final é atingir a neutralidade de carbono e autossuficiência energética até 2035 nos portos de Valência, Sagunto e Gandia. A nova subestação é a espinha dorsal física que permite transformar essas ambições em operação real, sem comprometer a competitividade ou a eficiência logística do complexo.

Impacto no mercado europeu e perspectivas

O investimento da APV se insere num contexto europeu de aceleração da descarbonização portuária, onde a infraestrutura energética passa a ser fator de competitividade. Portos que não investirem em capacidade elétrica para OPS e eletrificação de pátios poderão enfrentar restrições regulatórias e perder volume para concorrentes mais adiantados. O cofinanciamento pelo CEF sinaliza que a Comissão Europeia prioriza projetos que geram ganhos ambientais mensuráveis e que servem de modelo para outros hubs logísticos.

Ao dobrar sua capacidade energética e integrar fontes renováveis marítimas, Valenciaport consolida sua posição como referência técnica na transição energética portuária. Para o setor, a mensagem é clara: a eletrificação de terminais não se limita à substituição de equipamentos, mas exige uma reestruturação profunda da base energética — e quem não antecipar esse ciclo de investimentos ficará para trás.