A terceira edição da Multimodal Nordeste abriu as portas nesta terça-feira (4) no Recife Expo Center com uma pauta que espelha as transformações em curso na logística brasileira. Até quinta-feira (6), a feira reúne mais de 140 marcas expositoras e expectativa de receber cerca de 9 mil visitantes, consolidando o evento como referência regional para profissionais do setor portuário, transporte e comércio exterior. Os eixos temáticos da edição giram em torno de inteligência artificial aplicada a processos aduaneiros, eletrificação de terminais portuários, avanços na cabotagem e na integração entre modais — temas que deixam de ser tendência para se tornarem operação concreta nos portos nordestinos.

Feira amplia espaço e atrai novos players

A expansão física do evento acompanha o crescimento do interesse do mercado. A área da feira aumentou 30% em relação à edição anterior, com a incorporação de uma nova zona na entrada do Recife Expo Center que transforma a chegada dos visitantes em uma imersão no universo da logística: caminhões, empilhadeiras e contêineres recebem o público logo no primeiro contato. Segundo Domênico Carneiro, diretor da Multimodal Nordeste, o crescimento reflete o fortalecimento da feira no calendário nacional do setor. A expectativa de visitação é de aumento de 39% ao longo dos três dias.

Entre os novos participantes, a LogMaxxi estreou com o objetivo de consolidar a marca, resultado da união de três empresas do segmento. A Titanium Logística, que estreou em 2025, dobrou o tamanho do estande. Empresas como Correios e BrasMundi — esta última com 25 anos de atuação e mais de 50 mil metros quadrados de centrais de armazenagem na Região Metropolitana do Recife — também ampliaram a presença, apresentando soluções de gestão de suprimentos e logística reversa voltadas à operação nordestina.

A composição dos expositores revela a maturidade do evento: fabricantes, transportadoras, operadores logísticos, empresas de tecnologia e prestadores de serviços convivem no mesmo pavilhão, promovendo networking qualificado e rodadas de negócios. Patrocinado pelo Porto do Recife e pelo Banco do Nordeste, o evento conta ainda com apoio institucional de entidades como Abac, Anelog, Fiepe, Fiea e Fiern, além de apoio de Correios Log+ e NEQ.

IA já processa um quarto do comércio exterior

A aplicação de inteligência artificial em processos logísticos e aduaneiros deixou de ser promessa para se tornar operação diária. A Logcomex, empresa expositora na feira, afirma processar atualmente 26% do fluxo do comércio exterior brasileiro por meio de agentes de IA. Esses sistemas são capazes de antecipar gargalos, automatizar despachos e reduzir o tempo de liberação de cargas — ganhos que se traduzem diretamente em competitividade para importadores e exportadores.

A presença da Logcomex na Multimodal Nordeste sinaliza uma mudança de patamar na adoção de tecnologia no setor. Onde antes a IA era tema de painéis acadêmicos, agora integra o core business de operadores que lidam com volumes bilionários. Para estudantes e profissionais que visitam a feira, a demonstração prática dessas ferramentas oferece um panorama concreto de como a automação inteligente está redesenhando a gestão da cadeia de suprimentos, da coleta de dados aduaneiros à previsão de demanda.

Suape inaugura terminal eletrificado

O destaque operacional da feira veio com a confirmação das primeiras movimentações do novo terminal da APM Terminals no Complexo Industrial Portuário de Suape. Na última segunda-feira (3), os portões do terminal abriram para a entrada dos primeiros caminhões e contêineres, marcando o início das operações terrestres. A movimentação de navios, porém, ainda depende da homologação do calado do canal interno pelo Centro de Hidrografia da Marinha (CHM).

De acordo com Daniel Rose, diretor-superintendente da APM Terminals Suape e Pecém, toda a estrutura física e operacional está pronta. Os levantamentos batimétricos foram encaminhados ao CHM, no Rio de Janeiro, e o calado oficial disponível hoje é de 10,5 metros. O planejamento inicial previa a chegada do primeiro navio em 3 de agosto, mas a homologação pendente atrasou o cronograma em cerca de um mês. A companhia espera realizar operações extraordinárias ainda em agosto, com início dos serviços regulares projetado para 1º de setembro.

O terminal foi entregue oficialmente em 12 de junho e recebeu investimentos superiores a R$ 2 bilhões — equivalente a EUR 300 milhões, conforme a APM Terminals. Projetado para movimentar inicialmente até 400 mil TEUs por ano, o empreendimento ampliará em até 55% a capacidade de movimentação de contêineres do porto pernambucano. A estrutura é apresentada como o primeiro terminal de contêineres integralmente eletrificado da América Latina, marca que posiciona Suape como referência em descarbonização portuária no continente.

A APM Terminals também apresentou na feira os resultados de sua operação no Porto do Pecém, no Ceará, que movimentou mais de 706,5 mil TEUs em 2025. Os números reforçam a estratégia da companhia de consolidar sua presença no Nordeste, onde a combinação de infraestrutura moderna e posição geográfica privilegiada oferece vantagens competitivas para o comércio com a Europa, África e América do Norte.

Porto do Recife acelera modernização

Além da eletrificação em Suape, o Porto do Recife apresentou seus próprios investimentos em modernização e infraestrutura. Está em implementação um novo sistema de monitoramento com câmeras inteligentes, controle de acesso e atualização do plano de segurança portuária. O projeto representa a incorporação de tecnologias de vigilância e gestão de risco que antes eram restritas a portos de grande porte, agora acessíveis ao terminal recifense.

Outro projeto em andamento é a dragagem de manutenção do canal de acesso e dos berços de atracação, com investimento estimado em R$ 95 milhões. A intervenção permitirá a operação com calados de até 12 metros e tem conclusão prevista para dezembro de 2026. O aumento do calado é condição para que o porto receba embarcações de maior porte, ampliando a capacidade de atracação e reduzindo custos operacionais para armadores e operadores logísticos.

Diagnóstico aponta gargalos e propõe agenda técnica

A abertura oficial da feira trouxe o lançamento do Diagnóstico da Logística Competitiva de Pernambuco 2026, documento inédito elaborado pela Multimodal Nordeste em parceria com a Ceplan Consultoria Econômica e Planejamento, com patrocínio da Fetracan e do Setcepe. O estudo reuniu contribuições de empresários, operadores logísticos, transportadores, atacadistas e varejistas para construir uma agenda técnica fundamentada em evidências reais do mercado.

Entre os gargalos identificados, destaca-se a alta dependência do modal rodoviário, os obstáculos de integração intermodal, as barreiras regulatórias municipais e a escassez de mão de obra qualificada para lidar com as novas tecnologias que dominam a pauta da feira. A intenção dos organizadores é transformar o levantamento em publicação anual e realizar, em seis meses, um balanço com o Governo de Pernambuco sobre os avanços alcançados a partir das recomendações apresentadas.

O documento foi entregue formalmente ao Governo do Estado na noite de abertura, com o objetivo de orientar e unificar a pauta de investimentos prioritários em logística. A iniciativa representa uma tentativa de converter os debates de feira em políticas públicas concretas — algo que o setor portuário brasileiro ainda faz de forma insuficiente, apesar da multiplicação de eventos e diagnósticos nos últimos anos.

Mercado sinaliza maturidade tecnológica

A convergência de temas como IA, eletrificação, cabotagem e integração intermodal em um único evento revela que o setor logístico nordestino — e brasileiro como um todo — está deixando a fase de experimentação para entrar em adoção em escala. A APM Terminals não apenas inaugura um terminal eletrificado, mas já projeta operações regulares para setembro. A Logcomex não fala de IA como promessa, mas como ferramenta que processa um quarto do comércio exterior nacional. O Porto do Recife investe R$ 95 milhões em dragagem para receber navios maiores.

Os números da própria feira confirmam essa trajetória: crescimento de 30% na área de exposição, expectativa de aumento de 39% no público e a presença de empresas que dobraram seus estandes em relação à edição anterior. O Diagnóstico da Logística Competitiva de Pernambuco, com seus gargalos mapeados e recomendações entregues ao governo, oferece o contraponto necessário: a tecnologia avança, mas os entraves regulatórios, a dependência rodoviária e a falta de qualificação profissional ainda freiam o potencial do setor. O desafio agora é converter o ritmo das feiras em políticas públicas que acompanhem a velocidade da inovação.