No início de agosto de 2026, três desenvolvimentos distintos no setor portuário global sinalizaram uma mesma direção: a Kalmar e a APM Terminals anunciaram parceria estratégica para co-desenvolver a plataforma de automação Kalmar One, incluindo um inédito modelo de negócios "Automation as a Service". Simultaneamente, a Priime Tech, de Brusque (SC), automatizou os gates de saída do Porto Itapoá com sistemas de reconhecimento óptico, eliminando a digitação manual de placas, contêineres e lacres. E o Porto do Açu, no Rio de Janeiro, digitalizou sua gestão de inovação ao substituir planilhas descentralizadas por uma plataforma integrada da startup AutoU. A convergência dessas iniciativas — em modelos de serviço, automação de processos críticos e governança de inovação — revela que a corrida por terminais mais inteligentes já não se limita a equipamentos, mas abrange a transformação digital da própria inteligência organizacional dos portos.

Kalmar e APM Terminals redefinem o modelo de automação portuária

A parceria anunciada em 30 de julho de 2026 entre a finlandesa Kalmar e a APM Terminals, divisão independente da A.P. Moller-Maersk, vai além de uma fornecimento convencional de equipamentos e software. A APM Terminals obteve acesso ao código-fonte do sistema Kalmar One e passará a trabalhar lado a lado com os engenheiros da Kalmar no desenvolvimento e implantação da plataforma, tanto em terminais existentes quanto em novas operações. Essa abordagem de co-desenvolvimento permite que a experiência operacional acumulada pela APM Terminals — que em 2025 realizou 27.000 atracações e 25,8 milhões de movimentos em suas 35 instalações globais — seja diretamente integrada ao roteiro de desenvolvimento do produto, moldando funcionalidades a partir de necessidades reais de operação.

O componente central da aliança é a criação de um modelo "Automation as a Service", que marca uma mudança de paradigma na relação entre operadores de terminais e fornecedores de tecnologia. Em vez de uma compra única de licenças ou equipamentos, o modelo propõe uma colaboração contínua, onde a APM Terminals não apenas utiliza a tecnologia, mas co-cria sua evolução. Hans Jacobs, chefe de Tecnologia Operacional e Analítica da APM Terminals, descreveu a parceria como um marco para a indústria, enquanto Juuso Kanner, vice-presidente de Automação da Kalmar, destacou o compromisso com operações portuárias resilientes e seguras. O primeiro teste em larga escala já ocorre no Pier 400, em Los Angeles, o maior terminal de contêineres do Hemisfério Ocidental, onde o Kalmar One já está operacional.

Da experiência humana ao dado digital

Enquanto a Kalmar e a APM Terminals reconfiguram a automação em nível sistêmico, a Priime Tech atacou um dos pontos de estrangulamento mais comuns em portos: os gates de saída. A empresa, fundada em 2006 em Brusque (SC) e com certificação ISO 9001, implementou sistemas AGS (Automated Gate Systems) e OCR (Optical Character Recognition) no Porto Itapoá, eliminando por completo a necessidade de digitação manual de placas de veículos, números de contêiner e códigos de lacres. A tecnologia valida os dados em tempo real contra o TOS (Terminal Operating System) e as bases de acesso autorizado, capturando imagens com selo de data e hora para cada operação. O impacto prático é mensurável: terminais que processam 300 acessos diários com tempo médio de espera de quatro minutos por divergência cadastral acumulam mais de 20 horas improdutivas por dia — tempo que a automação devolve à operação.

A Priime Tech opera com modelo turnkey e tem presença em mais de 130 portos globalmente, sob a liderança do CEO Petersen Poia e do diretor de soluções Rogério Kohler. Mas o que torna o caso do Porto Itapoá particularmente significativo é a transformação do conhecimento tácito de operadores experientes em registros digitais auditáveis. No Porto de Tianjin, na China, essa mesma lógica foi aplicada em escala ainda maior: décadas de experiência de operadores veteranos foram convertidas em algoritmos de inteligência artificial que guiam robôs autônomos de transporte 24 horas por dia. O movimento global indica que a digitalização do conhecimento humano tornou-se a nova fronteira da automação portuária, reduzindo a dependência de mão de obra qualificada escassa e mitigando gargalos operacionais crônicos.

Inovação como processo gerenciável

No Porto do Açu, no norte fluminense, a transformação digital assumiu outra dimensão: a governança da inovação. O complexo portuário-industrial, o maior privado de águas profundas da América Latina, operado desde 2014 pela Porto do Açu Operações — joint venture entre a Prumo Logística e o Porto de Antuérpia-Bruges Internacional — implementou uma plataforma digital personalizada em parceria com a startup brasileira AutoU. A solução substituiu um modelo descentralizado de planilhas e e-mails por um ambiente único que automatiza processos, gera dashboards em tempo real e integra projetos corporativos com ideias de colaboradores. Segundo Juliane Carneiro, gerente de inovação do Porto do Açu, o crescimento do hub de inovação Cais Açu Lab tornou uma ferramenta centralizadora essencial para garantir rastreabilidade e visão integrada do portfólio.

O primeiro teste em larga escala da plataforma ocorreu no programa Cais de Ideias, de intraempreendedorismo, que mobilizou mais de 240 profissionais ao longo de aproximadamente quatro meses. O resultado foram 30 propostas estruturadas, desenvolvidas por 50 colaboradores, com mais de 600 interações — incluindo comentários, reações, votações e elementos de gamificação. Eduardo Julianelli, cofundador da AutoU, explicou que a arquitetura da plataforma reflete a realidade operacional do Porto do Açu e integra programas de ideias com a gestão de projetos corporativos. A AutoU, fundada em 2021, já desenvolveu 250 projetos que impactaram mais de 150 mil colaboradores em 15 países, com clientes como Stellantis, L'Oréal, Nestlé e B3.

Terminal que não inova perde competitividade

Os três casos, apesar de abordarem frentes distintas da operação portuária, convergem em um ponto: a automação isolada de equipamentos já não basta. A parceria Kalmar-APM Terminals demonstra que o futuro da automação reside em modelos colaborativos de longo prazo, onde o operador de terminal deixa de ser mero consumidor de tecnologia para se tornar cocriador. A Priime Tech prova que a captura digital do conhecimento tácito — a experiência acumulada nas cabeças de operadores veteranos — pode ser a diferença entre um gate que opera com 20 horas de tempo ocioso por dia e um que flui sem interrupções. E o Porto do Açu mostra que inovação não é um evento pontual, mas um processo que exige governança, ferramentas adequadas e engajamento sistemático da força de trabalho.

Para terminais brasileiros que enfrentam os desafios de uma safra recorde e escassez de mão de obra qualificada, essas três frentes oferecem caminhos concretos. A digitalização de gates, como fez a Priime Tech em Itapoá, ataca gargalos imediatos de produtividade. Modelos como o "Automation as a Service" reduzem a barreira de entrada para automação de ponta, ao distribuir custos e riscos ao longo do tempo. E plataformas de governança de inovação, como a implementada no Açu, transformam a criatividade da força de trabalho em projetos estruturados e mensuráveis. O Porto Itapoá, por exemplo, já registrou recordes em 2023 com aumento de 18% no primeiro trimestre, atingindo 533.423 TEUs, e 172,26 movimentos por hora em maio — números que só se sustentam com operações cada vez mais eficientes.

A transformação digital portuária deixou de ser uma promessa para se tornar uma condição mínima de competitividade. Os portos que tratam a automação como processo contínuo — e não como projeto pontual — são os que estarão posicionados para absorver os volumes crescentes do comércio global. No cenário brasileiro, onde os portos movimentaram mais de 1,4 bilhão de toneladas em 2025, a adoção dessas práticas não é mais diferencial, mas requisito de sobrevivência. Os exemplos que surgem agora, tanto de dentro do país quanto de parcerias globais como a Kalmar-APM Terminals, apontam para um futuro onde a inteligência operacional — humana e digital — define quem lidera e quem fica para trás.