A Associação dos Portos de Angola (APANG) reuniu especialistas, operadores e autoridades nos dias 30 e 31 de julho de 2026, em Porto Amboim, província do Cuanza Sul, para a sua VI Mesa Redonda. Sob o tema "Sustentabilidade e Digitalização Portuária", o evento de cariz internacional traçou um diagnóstico preciso da indústria portuária angolana e apontou rumos claros para a modernização do sistema, com ênfase na redução do impacto ambiental e na eficiência operacional.

Cooperação africana como motor de inovação

A abertura oficial contou com a presença de figuras-chave do setor marítimo angolano. Anisabel Veríssimo e Costa, presidente do conselho de administração da Agência Marítima Nacional (AMN), destacou que a sustentabilidade e a digitalização representam um desafio incontornável, posicionando os portos como motores de inteligência económica e integração regional. A diretora enfatizou a necessidade de adotar inovação tecnológica e garantir a segurança dos dados como prioridades imediatas.

O encontro não se limitou ao diagnóstico interno, buscando soluções práticas através da cooperação Sul-Sul. Painelistas de destaque internacional, como Énio Chingotuane, de Moçambique, trouxeram a experiência africana para o debate, discutindo a problemática da sustentabilidade nos portos do continente. Igualmente, Irineu Camacho, presidente do conselho de administração da Empresa Nacional de Administração dos Portos (ENAPOR) de Cabo Verde, apresentou casos de sucesso concretos, provando que práticas sustentáveis são aplicáveis e rentáveis no contexto lusófono.

O Porto do Lobito como laboratório de transição energética

Um dos momentos de maior substância técnica ocorreu com a intervenção do Porto do Lobito. O seu presidente, Celso Rosas, desvendou projetos específicos que vão além do discurso, mostrando uma transição energética em curso na infraestrutura logística do país. A aposta inclui a instalação de painéis solares tanto nos terminais marítimos quanto nas estações ferroviárias, visando uma redução direta nas emissões de carbono e nos custos operacionais.

Para além da geração de energia limpa, a administração do Lobito revelou planos robustos de mitigação ambiental, com foco no reflorestamento das margens ao longo de todo o Corredor do Lobito. Esta medida serve a um duplo propósito: garantir a segurança operacional da via férrea e assegurar a preservação da biodiversidade local. A entidade ainda utiliza a digitalização como ferramenta de gestão, tendo o seu diretor, Emanuel Domingos, integrado o painel sobre otimização das operações portuárias.

Capacitação profissional e o fator humano

A estratégia de modernização em debate em Porto Amboim não se restringiu a máquinas e softwares; o capital humano foi tratado como peça central. O Porto do Lobito anunciou um esforço concentrado na formação de quadros nacionais, em parceria com operadores privados. O objetivo declarado é qualificar maquinistas, técnicos de manutenção e estivadores, aumentando a empregabilidade dos jovens nas províncias que integram o corredor logístico.

Esta preocupação com a formação foi ecoada pelas instituições presentes, incluindo a Soalemag Business School. A presença de entidades de ensino reforça a mensagem de que a digitalização portuária exige uma força de trabalho preparada para lidar com sistemas automatizados e gestão de dados complexos. A segurança cibernética e a proteção de informações foram sublinhadas como competências essenciais para o profissional do porto do futuro.

O papel da indústria privada e a cooperação com o Japão

A maturidade do debate foi evidenciada pela participação ativa do setor privado, representado por gigantes como a Secil Marítima, que enviou seu presidente, João Martins, e a Multiterminais. Essa integração entre o poder público e os operadores privados demonstra uma compreensão madura de que as reformas estruturais necessitam de investimento conjuntos e alinhamento de expectativas.

Uma perspectiva de investimento de longo prazo foi introduzida pelo presidente da APANG, Manuel Nazareth Neto. Ele contextualizou o evento como um momento auspicioso, impulsionado por acordos de cooperação técnica com o Japão para o desenvolvimento do Porto de Águas Profundas do Amboim. Esse projeto representa uma mudança de escala na capacidade portuária do país e exigirá, necessariamente, a adoção dos padrões de sustentabilidade e digital debatidos na mesa redonda.

Contexto técnico e desafios da automação

A discussão sobre digitalização em Angola ocorre em um momento em que a literatura técnica global aponta tanto ganhos quanto riscos na automação portuária. Pesquisas recentes, como as publicadas pela Universidade de Aveiro, indicam que a implementação de portos inteligentes eleva a produtividade, mas impõe a necessidade de investimentos elevados e gestão cuidadosa do impacto no emprego. Para Angola, a transição deve equilibrar a eficiência dos sistemas digitais com a realidade da sua massa laboral jovem.

A necessidade de alinhar os portos angolanos com as melhores práticas da indústria global, conforme declarou o coordenador do encontro, Gualdino Mpengo, reforça a urgência de modernização. A adoção de sistemas integrados, como a Janela Única Logística que o Porto de Luanda planeja implementar em 2027 com tecnologias de IA e 5G, mostra que o setor nacional caminha para uma revolução operacional nos próximos meses.

Portugal e as economias desenvolvidas já sinalizam que a rastreabilidade ambiental e a descarbonização deixaram de ser diferenciais para se tornarem pré-requisitos de mercado. Angola, ao promover esse debate, antecipa-se à imposição de barreiras comerciais verdes e posiciona o seu sistema portuário como parceiro viável para rotas de comércio internacional cada vez mais exigentes com critérios ESG.

Encerrar a mesa redonda em Porto Amboim com a certeza de que o setor portuário angolano deu um passo concreto da teoria para a prática. Os projetos de energia solar, a cooperação técnica com potências asiáticas e a qualificação acelerada de mão de obra especializada sinalizam que a infraestrutura nacional busca não apenas acompanhar, mas definir novos padrões para a logística marítima na costa ocidental africana.