A Kalmar e a APM Terminals (APMT) anunciaram em 30 de julho de 2026 uma parceria estratégica para avançar na tecnologia de terminais de próxima geração, com foco em operações mais resilientes e seguras. O acordo, que vai além de uma simples fornecimento de equipamentos, posiciona as duas empresas para co-desenvolver e disseminar a plataforma de automação Kalmar One em terminais de contêineres globais, incluindo o já operacional Pier 400 em Los Angeles, o maior do Hemisfério Ocidental. Esta cooperação sinaliza uma mudança no modelo de relacionamento entre operadores portuários e fabricantes, rumo a uma integração mais profunda de software, equipamentos e know-how operacional.

O cerne da cooperação além do hardware

A parceria se estrutura em dois pilares principais. O primeiro é o desenvolvimento e a implantação conjunta do software Kalmar One, no qual a APM Terminals ganha acesso ao código-fonte e passa a colaborar ativamente no desenvolvimento e na implantação da solução em seus terminais existentes e futuros. Esse nível de acesso permite que a operadora adapte e otimize o sistema diretamente com base em suas necessidades operacionais do dia a dia. O segundo pilar consiste no alinhamento dos roteiros de produto, integrando a experiência operacional e tecnológica da APMT ao desenvolvimento futuro do Kalmar One, garantindo que as atualizações reflitam demandas reais de terminais de alto desempenho.

Um componente central do acordo é a criação de uma abordagem de Automation as a Service. Este modelo comercial combina software, equipamentos e expertise operacional em uma estrutura baseada em serviços, em vez da compra tradicional de licenças e equipamentos avulsos. Segundo Hans Jacobs, chefe de Tecnologia Operacional e Analítica da APMT, a parceria "reflete nosso compromisso em moldar a próxima geração de tecnologia de terminais através de uma colaboração mais próxima". Ao combinar as capacidades de equipamento e software da Kalmar com a expertise operacional da APMT, o objetivo é "co-desenvolver soluções de automação integradas que sejam mais seguras, transparentes, adaptáveis e alinhadas com necessidades operacionais reais".

Kalmar One em ação no Pier 400 de Los Angeles

A prova de conceito e o principal campo de testes para essa colaboração é o terminal Pier 400 da APM Terminals em Los Angeles, Califórnia. Com uma área de 507 acres, é a maior instalação portuária de contêineres das Américas. Lá, o sistema Kalmar One já gerencia e otimiza equipamentos automatizados de movimentação de contêineres, incluindo straddle carriers automatizados e sistemas de transporte horizontal. A implantação bem-sucedida nessa escala fornece dados operacionais valiosos que alimentam diretamente o ciclo de desenvolvimento conjunto do software.

A colaboração no Pier 400 não é novidade. As empresas já haviam trabalhado juntas em projetos de automação e eletrificação neste terminal e também no Tanger Med, no Marrocos. A parceria atual, no entanto, eleva essa cooperação a um patamar estrutural, transformando projetos pontuais em uma aliança de desenvolvimento de longo prazo. Juuso Kanner, vice-presidente de Automação da Kalmar, classificou a parceria como "um grande marco no desenvolvimento da automação de terminais de contêineres". A expectativa é que os benefícios gerados no Pier 400 possam ser replicados em outros terminais da rede global da APMT, que opera mais de 60 localizações em 35 países, realizando 25,8 milhões de movimentos de contêineres em 2025.

Contexto industrial e escala das empresas envolvidas

A escala das duas empresas torna a parceria particularmente significativa para o setor. A APM Terminals, divisão do grupo A.P. Moller-Maersk, emprega cerca de 22.000 pessoas e registrou 27.000 escalas de navios em 2025. A Kalmar, por sua vez, listada na Nasdaq Helsinki, opera em mais de 120 países com aproximadamente 5.300 funcionários e vendas de cerca de EUR 1,7 bilhão em 2025. A junção da capacidade de implantação e operação global da APMT com a especialização em automação e software da Kalmar cria uma força de mercado capaz de definir novos padrões tecnológicos para o setor.

A tendência de automação portuária ganha força globalmente, com operadores buscando não apenas equipamentos isolados, mas plataformas integradas de gestão que otimizem a utilização de ativos, a segurança dos trabalhadores e a previsibilidade das operações. A parceria Kalmar-APMT se insere neste contexto, ao mesmo tempo em que outras iniciativas globais avançam. No Brasil, por exemplo, a digitalização dos processos de troca de dados entre terminais e autoridades, como a promovida por soluções de gestão documental, é outro vetor que busca ganhos de eficiência no setor portuário.

Modelo Automation as a Service e desdobramentos

O modelo Automation as a Service proposto representa uma evolução nos modelos de negócio do setor. Em vez de grandes investimentos de capital (CAPEX) na compra de software e hardware, o modelo de serviço (OPEX) pode reduzir a barreira de entrada para terminais menores ou em fases iniciais de automação, ao mesmo tempo em que alinha os incentivos entre fornecedor e operador — o sucesso do sistema passa a ser de interesse mútuo. Juuso Kanner indicou que a parceria visa criar "valor compartilhado" através dessa abordagem, sugerindo que os retornos financeiros estão atrelados ao desempenho operacional alcançado.

Os próximos passos incluem a expansão da implantação do Kalmar One para outros terminais automatizados da APM Terminals, tanto existentes quanto prospectivos. A profundidade da integração — com a APMT participando do desenvolvimento do código-fonte — deve acelerar o ciclo de inovação e permitir respostas mais rápidas a desafios operacionais específicos. Para a indústria, esta cooperação pode servir como modelo para futuras alianças entre grandes operadores globais e fornecedores de tecnologia, acelerando a adoção de automação inteligente e resiliente nos portos mundiais.