A Associação Internacional de Portos e Armazéns (IAPH) elegeu Boudewijn Siemons, CEO do Porto de Roterdã, como vice-presidente regional para a Europa em 31 de julho de 2026. O mandato entrou em vigor imediatamente e se estende até a Assembleia Geral Anual de 2027, que coincidirá com a próxima edição da World Ports Conference. Siemons assume o lugar de Jacques Vandermeiren, ex-CEO do Porto de Antuérpia-Bruges, que deixou o cargo em abril deste ano, e passa a representar os portos europeus no conselho de uma entidade que reúne 212 autoridades portuárias de mais de 97 nacionalidades.
O peso de Roterdã na governança portuária global
A escolha de Siemons não é acidental. O Porto de Roterdã, o maior da Europa, mantém participação ativa em múltiplos grupos de trabalho da IAPH. Jens Meier, presidente da IAPH e CEO da Autoridade Portuária de Hamburgo, destacou que Roterdã tem sido um pilar nas iniciativas da associação, incluindo o Environmental Ship Index (ESI), combustíveis marítimos limpos, níveis de prontidão portuária e grupos de trabalho sobre energia de costa. Além disso, o porto holandês lidera esforços em otimização de chamadas portuárias, resiliência de cadeias de suprimentos e protocolos de segurança. Essa atuação multifacetada confere a Siemons uma base sólida para articular posições europeias no conselho da IAPH.
Siemons acumula uma trajetória profissional que conecta o setor naval ao gerenciamento portuário de grande escala. Ele ingressou na Autoridade Portuária de Roterdã em 2020, após quase uma década atuando na Royal Vopak, onde presidiu a divisão para a América do Norte e América Latina e participou da gestão na Europa, Oriente Médio e Estados Unidos. Antes disso, ocupou posições de liderança na Royal VolkerWessels. Sua carreira começou em 1987 na Marinha Real dos Países Baixos, onde serviu até 1998, tendo se formado no Instituto Naval Real e na Universidade Técnica de Delft. Essa combinação de experiência militar, operações industriais globais e gestão portuária moldou um perfil que transita entre a disciplina operacional e a visão estratégica de longo prazo.
Prioridades que definirão o mandato europeu
Logo após a confirmação da eleição, Siemons declarou que sua ambição é intensificar a colaboração entre portos, com foco em três pilares: descarbonização, interoperabilidade digital e resiliência de cadeias de suprimentos. Essas prioridades alinham-se diretamente com as pressões regulatórias da União Europeia sobre emissões marítimas e com a necessidade de padronização de sistemas digitais entre portos que operam com tecnologias heterogêneas. A ênfase em interoperabilidade digital, em particular, reflete um gargalo do setor: a dificilidade de troca de dados em tempo real entre terminais, operadores navais e autoridades aduaneiras de diferentes países, o que gera atrasos e custos adicionais na cadeia logística.
A escolha desses três pilares também ecoa iniciativas concretas que o Porto de Roterdã já lidera. O porto desenvolveu e transferiu recentemente a plataforma Routescanner — uma ferramenta que compara rotas multimodais de contêineres com dados de tempos de trânsito, custos e emissões de CO₂ — para a Royal Dirkzwager, em uma estratégia de entregar inovações ao mercado para que alcancem escala. Esse tipo de ação posiciona Roterdã como um laboratório de soluções que podem ser replicadas em outros portos europeus sob a coordenação da IAPH, especialmente em temas de digitalização e mensuração de emissões.
Continuidade institucional e o calendário decisivo de 2027
O mandato de Siemons até a Assembleia Geral Anual de 2027 lhe confere um horizonte de pouco mais de um ano para consolidar agendas e produzir resultados concretos. O primeiro teste prático acontece em 2 de setembro de 2026, quando Siemons discutirá suas prioridades regionais com os membros europeus em uma reunião da IAPH Europa em Hamburgo. Esse encontro definirá o tom das negociações e o grau de consenso entre os portos do continente sobre as pautas de descarbonização e digitalização. A proximidade geográfica e institucional entre Roterdã e Hamburgo — cidades portuárias conectadas por uma das rotas fluviais e ferroviárias mais movimentadas da Europa — pode facilitar a articulação política nos bastidores.
A saída de Vandermeiren do cargo em abril criou um vácuo de liderança europeia na IAPH durante um período de intensas transformações regulatórias no continente. O Fit for 55 da União Europeia, que inclui o ETS marítimo e a regulamentação FuelEU Maritime, exige que os portos europeus se posicionem coletivamente sobre prazos, mecanismos de conformidade e investimentos em infraestrutura de combustíveis alternativos. Siemons assume essa representação num momento em que a coordenação regional deixou de ser uma questão diplomática e passou a ser uma necessidade operacional.
O perfil da IAPH e o alcance da nova liderança
Fundada em 1955, a IAPH é reconhecida como ONG consultiva pela Organização Marítima Internacional (OMI) desde 1967. Seus membros movimentam mais de um terço do comércio marítimo global e mais de 60% do tráfego de contêineres mundial. A entidade reúne não apenas autoridades portuárias, mas também 184 empresas relacionadas ao setor portuário. Essa composição híbrida permite que decisões tomadas no conselho da IAPH influenciem tanto políticas públicas quanto práticas operacionais privadas. Quando Siemons fala em interoperabilidade digital, por exemplo, o impacto potencial ultrapassa as fronteiras europeias e pode afetar terminais na Ásia, Américas e África que mantêm conexões comerciais com portos membros da associação.
A liderança de Roterdã na IAPH também sinaliza uma tendência de concentração de influência nos grandes portos europeus do Mar do Norte. Com Antuérpia-Bruges temporariamente sem representação direta no conselho após a saída de Vandermeiren, e com Hamburgo ocupando a presidência global da IAPH através de Meier, o eixo Rotterdam-Hamburgo consolida-se como polo de poder institucional no setor portuário europeu. Essa dinâmica pode gerar tensões com portos do Mediterrâneo e do Báltico, que historicamente reivindicam maior peso nas decisões sobre investimentos e prioridades regionais.
O caminho de Siemons até a vice-presidência europeia da IAPH traça um arco que vai da Marinha Real dos Países Baixos, passando pela gestão industrial global na Royal Vopak e pela operação do maior porto do continente, até a liderança associativa do setor. Com Roterdã posicionando-se como referência em descarbonização e digitalização, a expectativa do setor é que Siemons use o mandato para transformar essas experiências em políticas compartilhadas entre os portos europeus — e que as decisões tomadas nesse ciclo de gestão produzam efeitos mensuráveis nas cadeias de suprimentos que dependem do corredor logístico do Mar do Norte.