A Priime Tech, empresa catarinense fundada em 2006 em Brusque (SC), automatizou os gates de saída do Porto Itapoá com sistemas AGS (Automated Gate Systems) e OCR (Reconhecimento Óptico de Caracteres), eliminando a necessidade de digitação manual de placas, contêineres e lacres. A tecnologia valida dados simultaneamente com o TOS (Terminal Operating System) e bases de acessos autorizados, capturando imagens associadas com data e hora para cada operação. O resultado prático: terminais que processam 300 acessos diários com média de quatro minutos de espera por divergência cadastral acumulam mais de 20 horas de tempo improdutivo por dia — um custo operacional que a automação elimina na raiz.

O custo ocioso da operação manual nos gates

Para compreender o que está em jogo, basta calcular o impacto de cada divergência cadastral em um terminal de médio porte. Quando um caminhão chega ao gate e o operador precisa digitar manualmente a placa, o número do contêiner e o lacre, qualquer erro de digitação ou inconsistência no sistema gera uma interrupção. Se o terminal recebe 300 veículos por dia e 10% deles apresentam alguma divergência cadastral, são 30 ocorrências diárias com tempo médio de resolução de quatro minutos cada uma. O resultado são 120 minutos perdidos — duas horas de gargalo apenas na fila de entrada. Nos gates de saída, onde a verificação de lacres e a conferência de documentação são mais complexas, esse número pode ser ainda maior.

Os sistemas AGS e OCR da Priime Tech atacam esse problema com leitura automática e simultânea de múltiplos dados. O OCR captura a placa do caminhão, o número do contêiner e o lacre em uma única operação, sem intervenção humana. A imagem é registrada com carimbo de data e hora, e a validação ocorre em tempo real contra o TOS e as bases de acessos autorizados. Quando há inconsistência, o sistema alerta o operador imediatamente, em vez de deixar que o erro seja descoberto minutos depois, quando o caminhão já está posicionado no gate. Essa abordagem reduz drasticamente o tempo de permanência por veículo e elimina a dependência de operadores experientes que conhecem os padrões de cada transportadora.

A Priime Tech opera com modelo turnkey — entrega o sistema completo, desde o hardware de leitura até a integração com o TOS do terminal. A empresa, liderada pelo CEO Petersen Poia e com Rogério Kohler na direção de soluções, possui certificação ISO 9001 e presença em mais de 130 portos globalmente. Essa escala permite que a empresa acumule dados operacionais de diferentes realidades — portos com alto volume de exportação de grãos, terminais de contêineres com rotatividade intensa, operações com cargas perigosas — e use esse acervo para refinar continuamente seus algoritmos de validação.

Do gate ao pátio a mesma lógica se repete

A digitalização do conhecimento tácito de operadores experientes não se limita aos gates. No Porto de Tianjin, na China, a Tianjin Port First Port Terminal Co. Ltd. converteu décadas de experiência de operadores veteranos em algoritmos de IA que guiam robôs de transporte autônomos 24 horas por dia. Cheng Weidong, vice-capitão de equipe de trailers, contribuiu com dados práticos de manobras — como posicionamento de contêineres, velocidade de aproximação e trajetórias de desvio — que serviram de base para os algoritmos de navegação dos veículos guiados por IA.

O terminal de Tianjin opera com guindastes automatizados, veículos guiados por 5G e posicionamento via satélite BeiDou, tudo alimentado por energia renovável. A operação contínua elimina os gargalos associados a turnos humanos — pausas para refeição, troca de turno, fadiga — e a precisão dos robôs reduz danos a equipamentos e cargas. Segundo os dados disponíveis, o terminal serve como referência técnica para projetos de automação em diferentes continentes, validando a tese de que o conhecimento humano pode ser codificado e replicado por máquinas sem perda de eficiência.

A convergência entre a experiência de Cheng Weidong em Tianjin e a automação de gates da Priime Tech em Itapoá revela um padrão: a automação portuária avança mais rápido quando não tenta substituir o ser humano do zero, mas sim digitalizar o que os profissionais já sabem fazer. O operador veterano que identifica uma placa adulterada pelo formato, o inspetor que reconoce um lacre violado pelo aspecto, o despachante que memoriza as particularidades de cada transportadora — todo esse conhecimento tácito pode ser capturado, estruturado e transformado em regras de validação automática.

O Porto Itapoá como prova de conceito brasileira

O Porto Itapoá, localizado em Santa Catarina, oferece um caso de estudo concreto sobre os resultados da automação de gates. Em 2023, o terminal atingiu recordes de movimentação: aumento de 18% no primeiro trimestre, alcançando 533.423 TEUs, e em maio registrou 172,26 movimentos por hora — um recorde operacional. O porto foi reconhecido pelo IBRC (Instituto Brasileiro de Relações com Clientes) como detentor do maior índice de satisfação de clientes do Brasil e subiu da quinta para a terceira posição em movimentação de contêineres no país naquele mesmo ano.

Embora os recordes de Itapoá não sejam atribuíveis exclusivamente à automação de gates, a tecnologia da Priime Tech contribuiu para eliminar um dos gargalos mais comuns em terminais brasileiros: a lentidão na liberação de veículos nos acessos. Quando o gate funciona como um funil — com operadores digitando dados manualmente e corrigindo erros em tempo real —, toda a cadeia a jusante sofre: o caminhão permanece parado, o pátio não recebe o contêiner na hora prevista, o guindaste fica ocioso, o navio atrasa. A automação desse ponto de entrada e saída tem efeito cascata sobre a produtividade total do terminal.

Os dados de Itapoá também demonstram que a automação não precisa ser um projeto de bilhões de dólares para gerar retorno. A Priime Tech implementou a solução com modelo turnkey, ou seja, entregou o sistema pronto para operação, com integração direta ao TOS existente do terminal. Esse tipo de abordagem reduz o tempo de implantação e minimiza o risco de incompatibilidade entre sistemas legados e novas tecnologias — um obstáculo frequente em projetos de automação portuária no Brasil.

Um mercado que cresce acelerado e direciona investimentos

O movimento de digitalização de portos está inserido em um mercado global de smart ports que cresce a taxas expressivas. Projeções da MarketsandMarkets indicam que o mercado deve evoluir de US$ 2,53 bilhões em 2025 para US$ 7,95 bilhões em 2030, uma taxa composta de crescimento anual de 25,8%. A Grand View Research estima trajetória ainda mais acelerada, com o mercado passando de US$ 3,24 bilhões em 2024 para US$ 14,64 bilhões em 2030, a uma taxa de 29,8% ao ano.

A automação responde por 33,1% da receita do mercado de smart ports em 2024, o que indica que terminais como Itapoá e Tianjin estão na frente de uma tendência que vai se consolidar na próxima década. A região Ásia-Pacífico concentra 39,1% da receita global em 2024, reflexo direto da aceleração chinesa — o país opera 60 terminais de contêineres totalmente automatizados e superou 330 milhões de TEUs movimentados em 2024. O investimento chinês em infraestrutura portuária internacional atingiu cerca de US$ 24 bilhões em 168 portos em 90 países entre 2000 e 2025, com a participação das Américas saltando de 10,8% no período 2000-2020 para 30% entre 2020 e 2025.

Esse fluxo de capital e tecnologia tem implicações diretas para o Brasil. O país recebeu em média US$ 505 milhões anuais em investimentos portuários chineses entre 2009 e 2023. A China Merchants Port adquiriu 90% do Terminal de Contêineres de Paranaguá em 2018 por US$ 3 bilhões. A COFCO concluiu em Santos um terminal agrícola com capacidade para 14 milhões de toneladas anuais. O interesse chinês no leilão do Tecon Santos 10, com previsão de mais de R$ 6 bilhões em investimentos e ampliação de 50% da capacidade, reforça que a automação portuária brasileira está cada vez mais conectada ao capital e à tecnologia asiática.

Lições para o setor brasileiro

A experiência da Priime Tech em Itapoá e a referência de Tianjin oferecem lições práticas para terminais brasileiros que ainda operam com processos manuais. A primeira delas é que a automação de gates não exige a substituição completa da operação — basta digitalizar os pontos de maior atrito para gerar ganhos imediatos de produtividade. A segunda é que o conhecimento dos operadores veteranos é um ativo valioso que, se não for capturado digitalmente, se perde quando esses profissionais se aposentam ou migram para outras funções.

O setor marítimo-portuário responde por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa, com a navegação internacional emitindo 706 milhões de toneladas de CO₂ em 2023, segundo a UNCTAD. A estratégia revisada da IMO (Organização Marítima Internacional), estabelecida em 2023, define metas de emissões líquidas zero por volta de 2050, com cortes de pelo menos 20% até 2030 e 70% até 2040 em relação a 2008. A automação contribui para essa agenda ao reduzir tempos de espera, otimizar rotas de movimentação interna e eliminar desperdícios energéticos associados a operações ineficientes.

No Brasil, a digitalização do conhecimento de veteranos pode ser a chave para superar dois obstáculos simultâneos: a escassez de mão de obra qualificada em terminais regionais e a pressão por eficiência que vem dos armadores internacionais. Terminais que não investirem em automação de gates e digitalização de processos tendem a perder competitividade para concorrentes que já operam com dados em tempo real — não apenas na China, mas em portos como Roterdã, que opera com mais de 60 caminhões robôs desde a década de 1990, e Xangai, que movimenta mais de 15 milhões de contêineres por ano com infraestrutura avançada.

Os recordes do Porto Itapoá em 2023 — 533.423 TEUs no primeiro trimestre, 172,26 movimentos por hora em maio e a terceira posição em movimentação nacional — mostram que o Brasil tem terminais capazes de operar em nível internacional quando investe em tecnologia certa. A Priime Tech, com presença em mais de 130 portos e certificação ISO 9001, oferece um caminho acessível para que outros terminais brasileiros repliquem esse modelo. O desafio não é mais tecnológico — é de decisão e velocidade de implantação. Enquanto a China já opera 60 terminais totalmente automatizados e investe bilhões em portos latino-americanos, o Brasil precisa converter seus melhores exemplos em padrão de mercado, não em exceção.