A China aprovou seu primeiro plano quinquenal nacional para modernização portuária, que visa transformar 43 portos de entrada em instalações inteligentes até 2030. A medida, anunciada em julho de 2026 pela Administração Geral de Alfândegas (GAC) e pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC), representa a maior aposta do país na aplicação de inteligência artificial e equipamentos inteligentes para acelerar a liberação alfandegária e o manuseio de cargas, afetando diretamente a logística global.
O Smart Port Construction Project e sua abrangência
O documento, que serve como o blueprint para o desenvolvimento dos portos de entrada durante o 15º Plano Quinquenal (2026-2030), designa 43 portos-chave para o Smart Port Construction Project. Esta rede abrange 15 portos marítimos, 12 aéreos, 11 rodoviários e 5 ferroviários, criando uma malha integrada de modernização. Os portos marítimos incluem nomes como Tianjin, Tangshan, Dalian, Taicang, Lianyungang, Zhoushan, Ningbo, Qingdao e Guangzhou, enquanto o porto de Yangpu, em Hainan, foi selecionado para upgrades de infraestrutura e inspeção.
A meta central é atingir progresso significativo até 2030 e concluir a modernização básica até 2035, conforme declarou Zhang Baofeng, vice-diretor da GAC, durante uma conferência de imprensa em Pequim. O plano não se limita a infraestrutura física; ele estabelece um comitê técnico nacional de padronização portuária e busca otimizar a governança sob o estado de direito, além de reforçar a segurança e a eficiência da conectividade transfronteiriça.
Para dar escala à operação, o plano prevê atualizações de infraestrutura em um total de 57 instalações portuárias. Essa expansão inclui a aceleração da construção em passagens fronteiriças estratégicas, como o Passo Torugart, na fronteira com o Quirguistão, e o porto ferroviário de Ganqimaodu, na fronteira com a Mongólia, conectando a rede chinesa a rotas terrestres da Ásia Central.
IA como o cérebro das operações alfandegárias
A pedra angular do plano é a integração de modelos de IA para criar um cérebro inteligente capaz de identificar riscos e compartilhar dados entre os portos. Oficiais alfandegários já utilizam óculos inteligentes de IA e scanners de tomografia computadorizada (TC) em operações diárias. O próximo passo, previsto no documento, é a implantação acelerada de equipamentos de varredura inteligentes e robôs de inspeção, visando que mais de 90% dos portos contem com essa tecnologia até 2030.
A operação em escala nacional é massiva. De acordo com Sun Meijun, diretor da GAC, o sistema portuário chinês processa diariamente uma média de 400 mil contêineres, 15 milhões de toneladas de carga, 22 milhões de encomendas expressas e 2 milhões de pessoas. A meta é reduzir drasticamente o tempo de liberação, com metas para desembaraço aduaneiro via documento único em transporte multimodal exceder 50% nos próximos cinco anos.
Zhang Baofeng descreveu a visão de futuro: terminais modernos e não tripulados operando de forma ordenada, com passageiros atravessando os canais de inspeção sob a orientação de robôs inteligentes. Para os portos terrestres, a meta é alcançar direção autônoma, inspeção inteligente e passagem eficiente, integrando plataformas de alfândega, inspeção de fronteira, transporte e administração marítima.
Multimodalidade e a aposta na descarbonização
Além da automação, o plano prioriza a multimodalidade. Há planos para expandir sistemas de transferência de contêineres compatíveis com diferentes modais e aumentar o uso do modelo um documento, um contêiner. Os sistemas digitais serão integrados entre plataformas de alfândega, inspeção de fronteira, transporte e resposta a emergências, apoiados por IA e compartilhamento de dados.
O documento também detalha um programa ambiental ambicioso. As ações incluem a instalação de energia em terra (shore power), redes de carregamento e troca de baterias, e infraestrutura de abastecimento para combustíveis de hidrogênio, amônia e metanol. O plano visa ainda a geração de energia renovável, a adoção de caminhões e máquinas de movimentação de cargas movidos a novas energias, e a criação de portos-piloto de carbono zero ou próximo de zero.
Outras medidas verdes incluem o fechamento de pátios de carga a granel e o controle de emissões de compostos orgânicos voláteis (VOCs). A integração dessas iniciativas busca não apenas eficiência operacional, mas também o cumprimento de metas de sustentabilidade cada vez mais exigidas no comércio internacional, posicionando os portos chineses como referência em operações mais limpas.
Otimismo de Zhang Baofeng e a escala do sistema
Em sua declaração, Zhang Baofeng afirmou que o cenário futuro do porto inteligente é promissor, descrevendo operações autônomas e eficientes. O vice-diretor da GAC destacou que a China se concentrará em construir portos de entrada mais seguros, mais eficientes, mais inteligentes, mais verdes e melhor governados, acelerando o desenvolvimento de portos modernos de classe mundial. A primeira metade do ano já apresentou indicadores positivos, com destaque para o reabastecimento bonded no Porto de Ningbo-Zhoushan, que se encontra entre os três maiores do mundo nesse segmento.
A magnitude do projeto reflete a posição da China como o maior jogador do comércio global. Modernizar 57 instalações e integrar 43 portos em um único sistema inteligente é uma operação logística sem precedentes, que promete redefinir os padrões de velocidade e eficiência no desembaraço aduaneiro. Para os profissionais do setor portuário e da logística, o plano chinês oferece um parâmetro claro de para onde a tecnologia e a gestão portuária estão caminhando na próxima década.