Em fevereiro de 2026, o cenário marítimo internacional sofreu uma ruptura drástica com o fechamento total do Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC), isolando centros como Jebel Ali e forçando gigantes como Maersk, CMA CGM e Hapag-Lloyd a desviar rotas para o Cabo da Boa Esperança. Simultaneamente, no Brasil, a DP World assinou um contrato de cinco anos com a Suzano em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, visando mitigar gargalos e garantir a fluidez das exportações de celulose diante da crescente incerteza geopolítica.

Gargalos geopolíticos elevam custos operacionais

O bloqueio de Ormuz interrompeu fluxos de energia e contêineres, obrigando navios a adotar rotas que adicionam entre 10 e 14 dias às viagens entre a Ásia e o Ocidente. Empresas como a Hapag-Lloyd e a Maersk suspenderam trânsitos pelo Canal de Suez, priorizando a segurança das tripulações em detrimento da agilidade logística. Esse cenário de retirada regional gera um efeito cascata que encarece o combustível e desajusta cronogramas em portos de todo o mundo.

Para o Brasil, o impacto se manifesta no aumento do frete internacional e na disputa por espaço em embarcações que agora operam com tempos de giro reduzidos. A dependência de rotas estáveis torna-se um risco sistêmico, exigindo que exportadores e operadores portuários busquem alternativas terrestres ou hubs de transbordo mais seguros. A crise no Oriente Médio funciona como um catalisador para a reavaliação de inventários e estratégias de suprimento.

O fechamento da hidrovia pelo IRGC prendeu embarcações dentro do Golfo Pérsico e forçou a CMA CGM a instruir seus navios a buscarem abrigo imediato. Sem alternativa marítima viável para o Golfo, o mercado de fretes enfrenta uma pressão sem precedentes. A resiliência das cadeias globais está em xeque, exigindo respostas rápidas dos operadores de terminais e autoridades portuárias mundiais.

DP World e Suzano fortalecem logística doméstica

Em resposta à volatilidade externa, a DP World amplia sua infraestrutura no Brasil, consolidando a integração entre operações portuárias e logística terrestre. O novo contrato com a Suzano envolve a gestão de um armazém de 5.000 metros quadrados em Cachoeiro de Itapemirim, focado na linha de produtos tissue. A operação suporta uma produção diária de 19.000 fardos, atendendo mercados estratégicos como Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, além do Centro-Oeste.

Essa movimentação no Espírito Santo complementa a parceria já existente no Porto de Santos, onde a DP World opera o maior armazém de exportação de celulose do país, com capacidade para 5 milhões de toneladas anuais. Em 2025, o terminal de Santos atingiu o recorde de 1,3 milhão de TEUs, demonstrando que a robustez da infraestrutura nacional é a principal defesa contra as oscilações globais. Fabio Siccherino, CEO da DP World no Brasil, e Nilton Sampaio, da Suzano, destacam que a agilidade e a conectividade multimodal são agora pilares de sobrevivência econômica.

O investimento de R$ 3 bilhões realizados pela DP World desde 2013 no mercado brasileiro reflete uma visão de longo prazo na conectividade multimodal. A gestão integrada abrange desde o recebimento de insumos até a distribuição de produtos acabados, como guardanapos e papel higiênico. Essa eficiência operacional é necessária para compensar os atrasos gerados pelos desvios internacionais forçados pela instabilidade no Oriente Médio.

Perspectivas e resiliência setorial

A dualidade entre a paralisia no Oriente Médio e a expansão logística em solo brasileiro revela a necessidade de resiliência nas cadeias de suprimento. Enquanto o mundo lida com o isolamento do Golfo Pérsico e a suspensão de rotas pelo Suez, o Brasil avança na consolidação de complexos multimodais que integram fábrica e porto. Os desdobramentos futuros exigirão investimentos contínuos em tecnologia e automação para absorver os custos de trânsitos prolongados e garantir a competitividade externa.

Mesmo diante de um cenário global conturbado e dos desafios estruturais que o país enfrenta, o setor portuário nacional demonstra maturidade ao atrair investimentos estratégicos. A expansão da infraestrutura sinaliza que o Brasil segue evoluindo e fortalecendo sua posição como um player logístico confiável, capaz de crescer e otimizar processos apesar das adversidades internacionais severas.