A nomeação de Cristina Castro Lucas de Souza como diretora interina da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), formalizada em 19 de fevereiro de 2026, marca um ponto de inflexão na regulação do setor. Em um cenário de crescentes desafios ambientais e sociais, a chegada de uma especialista em ESG (Environmental, Social, and Governance) ocorre simultaneamente a eventos críticos, como a interdição da base da Vibra Energia pela ANP e a revogação de decretos sobre hidrovias na Amazônia. Essa mudança sinaliza uma tentativa de modernizar a gestão pública para lidar com crises de alta complexidade.
Cristina assume o posto deixado por Flávia Takafashi para um mandato de até 180 dias. Com vasta experiência acadêmica e técnica, incluindo doutorados e pós-doutorados, ela anteriormente liderou a Superintendência de ESG e Inovação da agência. Durante sua gestão na superintendência, coordenou o primeiro Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) do setor, alinhando as operações portuárias aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e às metas de descarbonização global.
Rigor regulatório e segurança operacional
O rigor regulatório sob a ótica ESG torna-se urgente após o grave incidente na base de distribuição da Vibra Energia em Volta Redonda. No dia 22 de fevereiro, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) determinou a interdição imediata da unidade operacional devido a uma explosão em um tanque de armazenamento de etanol. O episódio reforça a necessidade de auditorias mais rígidas em infraestruturas que movimentam produtos perigosos, visando resguardar a segurança de pessoas e evitar danos ambientais severos.
No âmbito social e territorial, a Antaq enfrenta o tensionamento gerado pelo Decreto 12.600. Em 23 de fevereiro, o secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos, anunciou a revogação da norma que autorizava a inclusão das hidrovias dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND). A decisão foi uma resposta direta aos protestos de comunidades indígenas e ribeirinhas, que alegavam que as obras de dragagem afetariam a pesca e a subsistência local.
O conflito na região amazônica escalou para a ocupação do terminal da Cargill em Santarém, gerando reações imediatas de entidades produtivas como a ABTP e o IBP. Em nota conjunta, as associações denunciaram atos de vandalismo e riscos à integridade física dos trabalhadores. O cenário evidencia o desafio de equilibrar o desenvolvimento logístico necessário para o agronegócio com o respeito aos direitos territoriais, um dos pilares centrais da governança social e ambiental.
Debate legislativo e consulta prévia
A discussão sobre o futuro das hidrovias amazonenses também ganha corpo na Câmara dos Deputados. Audiências públicas lideradas por parlamentares como Célia Xakriabá (Psol-MG) e Airton Faleiro (PT-PA) questionam a ausência de estudos de impacto socioambiental profundos. Eles argumentam que o decreto foi editado sem a consulta prévia, livre e informada, descumprindo a Convenção 169 da OIT e a própria Constituição Federal.
Neste contexto, a estratégia de gestão de Cristina Castro na Antaq deve focar na mitigação de riscos por meio de inovação tecnológica e instrumentos técnicos de análise. Iniciativas anteriores da diretora, como o projeto Rio Limpo Amazônia Viva e a elaboração do Energy Book, exemplificam como o conhecimento científico pode fundamentar políticas públicas que evitem o embate direto entre o progresso infraestrutural e a preservação socioambiental.
Além da governança e do diálogo social, a transição energética permanece como meta prioritária. O desenvolvimento de projetos-piloto de descarbonização em portos organizados busca não apenas reduzir a pegada de carbono, mas também aumentar a eficiência operacional. A modernização tecnológica é vista como o caminho para tornar o setor aquaviário brasileiro mais competitivo internacionalmente e resiliente a crises sistêmicas.
Especialistas do setor observam que a integração de práticas ESG na diretoria colegiada da Antaq pode transformar a forma como incidentes operacionais e conflitos de licenciamento são gerenciados. A expectativa é que a agência atue de forma mais proativa, exigindo maior transparência e responsabilidade socioambiental das concessionárias, terminais privados e operadores logísticos em todo o território nacional.
Em suma, a nova era na Antaq sob a liderança interina de Cristina Castro Lucas de Souza representa um desafio de harmonização entre interesses econômicos e sustentabilidade. O sucesso dessa transição será medido pela capacidade de converter diretrizes de ESG em protocolos práticos que garantam a segurança operacional, como no caso da Vibra Energia, e o diálogo social efetivo, assegurando o crescimento sustentável da logística marítima e hidroviária no Brasil.