Retomada Estratégica da Navegação Gaúcha

Em um movimento estratégico para a logística nacional, o Porto de Porto Alegre retomou oficialmente a navegação de longo curso e liberou a navegação noturna, suspensa há 42 anos. O anúncio, realizado em 15 de janeiro pelo governador Eduardo Leite, em conjunto com a Marinha do Brasil e a Portos RS, marca um ponto de virada para a competitividade do Rio Grande do Sul, visando reduzir custos, aumentar a eficiência e conectar a produção local aos mercados globais.

A decisão foi o resultado de um programa de investimentos robusto, que totaliza aproximadamente R$ 258 milhões, provenientes do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs). As ações, executadas pela Portos RS, incluíram dragagem de canais na Lagoa dos Patos, Lago Guaíba e Rio Jacuí, levantamentos batimétricos contínuos e uma modernização completa da sinalização náutica. Cristiano Klinger, presidente da Portos RS, destacou que o resultado é uma hidrovia confiável, segura e preparada para sustentar o crescimento da atividade portuária.

Paralelamente, entre 2022 e 2025, foram investidos cerca de R$ 15,45 milhões na modernização de 262 sinais náuticos, garantindo orientação precisa para as embarcações em operações diurnas e noturnas. “Esse avanço só foi possível porque o Estado recuperou sua capacidade de investimento”, ressaltou o governador Eduardo Leite, sublinhando a importância da segurança para atrair novos negócios.

Conectando Logística à Bioeconomia

A hidrovia do Rio Grande do Sul, um corredor por onde já circulam cerca de 6 milhões de toneladas de cargas anualmente, agora se posiciona para integrar novas cadeias de valor, com destaque para a bioeconomia. Um exemplo concreto dessa nova fase é o acordo firmado pela Petrobras para fornecer até 12 mil toneladas de bunker com conteúdo renovável (VLS B24) para a gigante norueguesa Odfjell ao longo de 2026.

O abastecimento será realizado a partir do Terminal de Rio Grande (Terig), um ponto estratégico do sistema hidroviário gaúcho. O VLS B24, composto por 24% de biodiesel, possui a certificação internacional ISCC EU, que assegura a sustentabilidade e a rastreabilidade em toda a cadeia produtiva, atendendo às rigorosas exigências do mercado europeu, como a regulamentação FuelEU Maritime.

Claudio Schlosser, diretor de logística da Petrobras, afirmou que a iniciativa “viabiliza soluções concretas em novas energias e descarbonização”, reforçando o compromisso com a inovação. O acordo com a Odfjell, que possui uma frota de mais de 70 navios, também fortalece o corredor verde entre Brasil e Noruega, formalizado por um Memorando de Entendimento em fevereiro de 2025.

Segurança Sanitária Acompanha o Crescimento

O aumento do fluxo de embarcações de longo curso e a diversificação das cargas, incluindo biocombustíveis para mercados internacionais, elevam a importância da segurança nas fronteiras. Nesse contexto, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) publicou novas regras para a entrada de produtos agropecuários transportados em bagagens de viajantes, uma medida crucial para proteger o patrimônio agropecuário nacional.

A normativa visa inibir a introdução de pragas e agentes causadores de doenças, fortalecendo a atuação do Sistema de Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro). Segundo Carlos Goulart, secretário de Defesa Agropecuária, as regras reforçam a atuação preventiva, garantindo “maior segurança sanitária, previsibilidade e clareza para quem ingressa no país”.

A fiscalização abrange desde animais e vegetais até produtos de uso veterinário e alimentos, exigindo que o viajante preencha a Declaração Eletrônica de Bens (e-DBV) e se apresente à unidade do Vigiagro. O descarte voluntário de itens proibidos também faz parte do protocolo. Essas ações são fundamentais para garantir que a expansão logística não crie vulnerabilidades sanitárias.

A revitalização da hidrovia gaúcha, portanto, transcende a simples melhoria de infraestrutura. Ela representa um passo calculado para descentralizar a logística brasileira, integrar o agronegócio à bioeconomia global e, simultaneamente, fortalecer os mecanismos de defesa sanitária, construindo um ecossistema logístico mais moderno, sustentável e seguro.